sexta-feira, 28 de outubro de 2016

João Lobo Antunes: “O pessimismo é uma profecia que se cumpre”

EXPRESSO    27.10.2016


Compaixão, doçura, crueza, doença, esperança. “Apesar do progresso, e ainda mais numa especialidade altamente tecnológica como a minha, nunca vi, não conheço arma nenhuma, de qualquer natureza, seja medicamentosa seja instrumental, que faça anular a necessidade da compaixão”. Palavras de João Lobo Antunes, numa entrevista em 2015 à revista E, em que disse, entre outras coisas, ter sido “mais um barco de papel deitado ao rio do que um barco com remos a tomar uma direção”. O neurocirurgião das palavras morreu esta quinta-feira, vítima de um melanoma.
Em sonhos ainda opera. Vê-se na sala de operações com uma coluna aberta e diz: sei fazer isto, mas estou cansado, não quero estar aqui. Quando acorda, verifica que era verdade. Já não quer estar ali. Retirado desde junho, e “sem lágrimas”, o que tinha a dizer nesse campo está dito e outras são as paisagens que agora lhe interessam. E onde se situam elas? Em que lugar do mapa? O livro que publicou há semanas, “Ouvir com Outros Olhos” (Gradiva), contém parte da resposta. São ensaios curtos sobre temas que o “obrigaram a pensar”. Alguns deles cortam, como bisturis. Outros arrumam, ordenam o caos. Mas não estão isolados. Inserem-se numa realidade de escrita mais plena que o autor sempre desejou e que uma profissão tentacular o foi deixando exercer até quase não se confundir dela — ele que é um médico de palavras e um dos maiores neurocirurgiões do mundo, um homem que jamais foge a uma pergunta, um professor, um ativo humanista e um ex-conselheiro de Estado, e mesmo assim, como generosamente afirma, um filho “derrotado” pelo pai.
Eis o presente de João Lobo Antunes, as palavras. As das memórias que anda a escrever e as de um ‘projeto secreto’: a tradução para português de 50 dos poemas em inglês que a filha Margarida lhe remete diariamente desde que soube da sua doença. Às Janelas Verdes, no escritório onde passa muitas das suas horas, Lobo Antunes dissecou esta nova condição. A de ser médico e estar doente. A de ter mais tempo. E a de ser nutrido — porque sempre foi um bom aluno — pelas experiências dos outros, dos que estavam do outro lado, sob as suas mãos.

Em “Ouvir com Outros Olhos”, diz que temeu ficar empedernido com a idade e que os anos o tornaram mais sensível. É o relato de uma mudança? 
O título do livro recorre a uma sinestesia que envolve dois sentidos diferentes, o visual e o auditivo. O que eu queria dizer é que olho para as pessoas — e qualquer olhar é uma intrusão — com outra profundidade, para lá da superfície, tentando perceber a sua realidade, a sua identidade. Muita coisa é dita com o olhar. Há anos escrevi que não se pode dizer com os olhos aquilo que se nega com a palavra. Diria que foi a experiência da doença que me tornou mais sensível. Como se tivesse esticado a corda do violino e esta vibrasse ao menor toque, com maior intensidade e frequência. Por isso, mais do que uma mudança sofri uma evolução, que introduziu outra doçura na relação com as pessoas.

Uma doçura que está em desuso? 
Esta é uma matéria que me preocupa muito. Tenho refletido sobre a alteração da medicina, sobre a razão por que estamos cada vez mais longe dos doentes. E estamos afastados dos doentes pela intersecção das diferentes tecnologias, pela pulverização do saber, pelos múltiplos especialistas que são chamados a cuidar de alguém. Aquilo que era uma relação única, um a um, perdeu-se.

Uma palavra que usa muitas vezes é “compaixão”. 
Compasio é mais do que a simples empatia, vai mais fundo. E cada vez mais interessa às neurociências, pois parece que o nosso cérebro está equipado para sentir compaixão, ou seja, para viver o sofrimento do outro. Apesar do progresso, e ainda mais numa especialidade altamente tecnológica como a minha, nunca vi, não conheço arma nenhuma, de qualquer natureza, seja medicamentosa seja instrumental, que faça anular a necessidade da compaixão.

E a crueza? Avisa logo o leitor de que esta pode ser a sua última coletânea. 
Não é crueza, tenho é a noção do tempo que me irá faltar para escrever alguma coisa de semelhante. O José Cardoso Pires terminava o seu “De Profundis” dizendo: acta fabula est. O que tinha para dizer está dito, e agora parti para outras paragens, fora da paisagem ensaística. Publicar esta coletânea era importante porque me custava acreditar que desapareceria deixando arquivados uma série de textos que me obrigaram a pensar.

O livro dá-nos o ponto de vista de alguém a quem só recorremos quando procuramos — como diz — a transação que visa os seus serviços. Mas esse encontro é mais do que uma transação e o médico é uma pessoa. 
Isso é curioso porque, quando comecei, o que pretendia era salvar vidas. Pensava que a morte ou a incapacidade eram uma derrota quase pessoal. Trabalhei uns anos, ainda era menino médico, numa casa de saúde de freiras, uma casa psiquiátrica onde havia muitas mulheres com processo de demência e declínio mental. E eu queria mantê-las vivas a todo o custo. Já para as freiras, se elas morressem, era uma alma que ia para o céu — uma alma imaculada por não ter sequer o equipamento do mal para cometer o pecado. Com o tempo, a pessoa-médico que sou foi aprendendo a não lutar contra a natureza. Foi uma descoberta consoladora e tranquilizante. Porque esta é uma área ingrata, em que não há possibilidade de compensação ou de regeneração.

Descobriu que entre a doença e a cura existem gradações? 
Sim, e que a ideia triunfante de dominar a doença está implícita nas metáforas guerreiras que usamos: a guerra contra o cancro, o combate, uma arma nova... A metáfora é um instrumento indispensável para se transmitir o que se sente. E muitas vezes a linguagem metafórica do doente só é bem compreendida quando o médico passou pela mesma situação.

O doente pede a cura. E por vezes a cura é ter mais tempo. 
Essa é a grande tragédia da morte. O Fernando Gil tem um ensaio magnífico intitulado “Mors certa, Hora Incerta”, sobre o facto de a morte ser uma certeza sem remissão e o tempo um grande mistério. Montaigne diz que todos os dias conduzem à morte e fala da morte final, ou seja, há muitas mortes. O que assusta é a morte interromper a dádiva da vida. Por vezes, as pessoas pedem mais tempo para coisas que parecem triviais. Um doente pediu-me mais três meses para ver o campeonato do mundo de futebol. Viu-o e depois morreu. Outros pedem mais um Natal, casar mais uma filha. E há outro aspeto que eu próprio experimentei: a vida projeta-se no futuro e se o futuro parece opaco ou enevoado deixamos de fazer projetos. Daí a vertigem em ter colecionado estes ensaios e de escrever um pouco mais.

Fala das suas memórias? 
É um relato para os meus netos saberem o que o avô fez. Uma espécie de diário escrito 40 anos depois, que termina quando regresso a Portugal. Não quis avançar mais porque a partir daí tornei-me diferente, mais ativo como cidadão. Nos Estados Unidos eu era médico e professor, um small fish in a big pond, com algum reconhecimento clínico e uma razoável reputação. Não sei que tipo de peixe sou agora, mas diria que a minha vida foi partida ao meio.

Há um antes e um depois dos EUA? 
Há um antes e um depois de atingir a maturidade técnica, que significa o seguinte: se entrar por aquela porta alguém com um problema complicado, como um tumor cerebral, eu com maior ou menor dificuldade ou sucesso sei o que fazer. É uma liberdade única, a liberdade de voar. Esses anos coincidiram também com um tempo de aprendizagem da democracia em Portugal, que está hoje muito maltratada. Mas não quero ir por aí.

Porquê? 
Pela impureza das palavras que se dizem. O desrespeito pela verdade, a violência dos termos, o estarmos longe daquilo que alguém chamou de ‘democracia humilde’, aquela que aceita o ponto de vista do outro, ouvindo-o. Fernando Gil falava muito da má-fé, que é um sentimento relacional e significa que a nossa posição está tomada antes de ouvirmos o argumento do outro. Passados os 70 anos tenho pena de estar a viver este tempo.

Um tempo de má-fé? 
Sim, um tempo de má-fé.

A propósito de ter descoberto o Portugal democrático ao voltar dos EUA, dez anos após o 25 de Abril, disse numa entrevista: “Os portugueses são os mesmos.” Ainda acha isso? 
Nós aprendemos e codificámos as regras da democracia. O processo está estabelecido, mas não chega. A liberdade e a democracia são uma espécie de oxigénio, que serve para respirar num tempo tão complexo como o nosso. Mas é preciso mais, é preciso construir. E temo que isso não seja possível com a polarização do debate, com a falta de respeito por um sentimento tão simples e elegante como é a decência.

Se não se tivesse ido embora o seu percurso teria sido mais politizado? 
Estive muito envolvido na Juventude Universitária Católica e no jornal “O Encontro”, e tudo isso me permitia uma oposição esclarecida ao Estado Novo. Os meus companheiros dessa altura tornaram-se grandes figuras da política da República portuguesa. Enquanto eu fui só médico. Nunca pretendi ter uma intervenção política, a não ser em três eleições presidenciais [foi mandatário de Jorge Sampaio em 2001 e de Cavaco Silva nas duas candidaturas]. De facto, aquilo que faço, ou que fazia, era ser cirurgião, académico, professor.

Sendo isso tudo, que entendimento do ser humano lhe deu o facto de conhecer os seus processos mais escondidos?
Com o tempo, fui valorizando o aspeto biológico do ser humano. Comecei a olhar para a motivação do comportamento de cada um, para a necessidade de se reproduzir, de sobreviver. E este entendimento trouxe não diria um álibi, mas pelo menos uma benevolência. Muitas vezes dou por mim a ouvir alguém a expor os seus pontos de vista e penso: “Está a falar o bicho.” O bicho-pessoa, o “bicho da terra” do Camões. Não sou diferente dele, percebo as suas motivações. Acontece que além destas há outra coisa que são os valores, transcendentais e indispensáveis para dar coesão à sociedade dos homens. Na minha visão paracristã, digamos, só há um pecado, que é fazer mal ao outro. O resto são derivativos.

O bicho humano é complicado. Compreendê-lo não o fez alguma vez sentir omnipotência? 
A primeira intervenção que fiz sozinho foi a um tumor cerebral, em Nova Iorque, a uma mulher jovem. Era porto-riquenha e chamava-se Miriam, que é o nome de uma neta minha. Foi um milagre ela acordar a mesma pessoa, intacta, depois de eu lhe ter tirado uma fatia razoável do cérebro. Lembro-me da sensação de exaltação, quase de felicidade absoluta, por não ter sido instrumento de uma transformação, por ter recebido alguém e a ter devolvido exatamente como estava, com um tumor a menos. A partir daí, essa sensação manteve-se comigo: o milagre e a gratidão a um ser supremo, que não sei se existe. Claro que tenho também a minha coleção de desastres. Há um que me vem à memória com frequência. A doente ficou cega e eu percebi no ato cirúrgico que isso estava a acontecer. E não dá para rebobinar o filme. Sabe, também tenho um lado de humildade, coisa que as pessoas por vezes não percebem. E que eu guardo para mim.

E o homem altivo e ligeiramente elitista que surge nas descrições que fazem de si? Existe? 
O Eduardo Prado Coelho, que era um grande amigo e colega de liceu, escreveu uma coisa sobre mim que me fez pensar: “Este homem percebeu o que eu acho que sou.” Entre outras coisas, disse que eu era fleumático. Só a absoluta estupidez e uma cegueira total em relação aos próprios defeitos é que permitiriam a alguém que teve uma lição de vida como a minha ser vaidoso. A profissão despejou-me baldes de humildade.

A profissão moldou-o? 
A medicina fez-me médico. Nós aprendemos o básico, a parte artesanal da profissão. É onde muitas vezes falhamos, embora eu tenha sido muito bem educado. Aquilo em que me tornei é uma demonstração brilhante da virtude da educação, do que chamo o ‘currículo silencioso’, que passa por osmose, informalmente, em sítios tão diversos como o restaurante do hospital ou o serviço de urgência. Se eu quisesse apontar a minha qualidade maior, o meu maior talento, diria que fui sempre um bom aluno. Até ao dia de hoje, em que comparo a minha experiência como doente com o que observei ao longo da vida e tento aproveitar isso para a minha melhoria, para a minha tolerância, e até para outra coisa sobre a qual tenho escrito muito que é a esperança.

Como é João Lobo Antunes doente? Qual a sua narrativa? 
Somos todos diferentes e o reconhecimento dessa diferença é fundamental para o ato médico. Saber com quem é que estamos a falar. No meu caso, saber como sou na doença. E eu diria que tenho a necessidade de manter um certo pudor, de não me despir completamente e de conter o medo. Quando adquirimos uma certa prática em ouvir a narrativa, percebemos que nem sempre é útil destapar o medo. Às vezes é melhor abordá-lo pela porta do fundo.

Porquê? 
Porque falar do medo torna-o real. E se não falarmos nas coisas elas não assumem uma realidade tão dolorosa. Podemos usar até o argumento da autoridade, que hoje caiu de moda, e dizer: “O senhor não vai sofrer porque eu não vou deixar”. Eu disse isto ao meu pai. De forma velada, estava a dizer-lhe até onde iria para ele não sofrer. Ele era um homem muito orgulhoso da sua coragem física e ficou tranquilo.

Essa assertividade pode não corresponder à realidade. O médico não controla tudo. 
Mas não deixa de ser uma afirmação séria. É a verdade, eu não vou deixar que sofra.
O seu pai era neurologista. Como lida com a doença quem a conhece por dentro? 
É assustador. Falo do medo do doente mas posso também falar do medo do médico. Um dia perguntei a um dos melhores neurocirurgiões do século XX se alguma vez tinha tido medo. É uma pergunta indiscreta. Ele disse: “Medo? Pânico!” Lembra-me de quando estava a nadar na praia do Meco e percebi que não conseguia voltar para terra. Pensei: “Já te viste em apuros destes na sala de operações e não perdeste a cabeça.” Nós muitas vezes sabemos que o inimigo que vamos enfrentar mete medo, mas no momento do confronto o medo desaparece. Antes, podemos nem dormir, e depois vem a exaustão. Vinha, isso já pertence ao meu passado, já não é o meu presente.

Permita-me insistir: até que ponto seria preferível o desconhecimento? 
Sabe, eu nunca quis saber muito acerca das minhas doenças. Nunca tive curiosidade médica em relação a mim próprio. Era muito novo quando fui operado à coluna e nunca vi os meus exames. O que é paradoxal, porque era o meu pão com manteiga. Agora, o papel da minha mulher, que é médica, é gerir a minha doença.

Deixa isso nas mãos dela? 
Ela é o meu intérprete junto dos médicos. Estamos juntos e o médico fala-lhe, como se eu não existisse. Uma vez por outra isso irritou-me um bocadinho. Mas as instruções eram-lhe dadas porque ela exercia sobre mim essa autoridade. Vivo confortável com isso.

No livro, cita Virginia Woolf quando ela escreve que a doença estabelece uma nova “hierarquia das paixões”. É o que lhe aconteceu? 
A vida normal é um caos desorganizado de projetos, emoções, sentimentos, interesses culturais, familiares, profissionais. Nós vivemos nesse caos. O que faz a doença? Arruma o caos. Fica tudo dominado por uma voz, um cântico monótono. Um cantochão que destrói aquilo que é a vida.

Que envenena, no sentido de Tolstoi no “Ivan Ilitch”?
Escrevi, pensei e li muito sobre a doença, e de um modo geral o que Tolstoi descreve é exatamente o que se passa. Ou seja, foi preciso que um ficcionista — um homem genial — tratasse o assunto desta maneira. Como é que ele soube tudo isto? Alguém lhe contou? Observou? Percebeu? Adivinhou? O grande mistério da criação literária é como se processa essa alquimia, a transformação da vida numa narrativa.

A narrativa e a vida têm tempos diferentes. A doença acelera a vida? 
Uma das características de uma pessoa se ter retirado da vida ativa é deixar de saber em que dia está. Se me perguntar que dia é hoje não lhe sei responder. Mas posso dizer que as duas noites que passei na unidade de cuidados intensivos me fizeram ver como o tempo tem velocidades diferentes. Passa tão lentamente... Mandei tirar o relógio que estava na parede.
Incomodava-o? 

Imenso. O tempo ‘coisificado’ não me apetecia.
No livro fala da “imunologia da esperança”. Como se esperar fizesse parte da cura. 
A esperança é um sentimento. Pascal trata-a como um privilégio dos cristãos. E a gestão da esperança é uma das coisas mais difíceis na prática médica, do ponto de vista ético e moral. A esperança prolonga-se num tempo em que vão acontecer coisas melhores. Estamos a viver uma experiência que nos derrota e faz sofrer, e vamos projetando no tempo a transformação dessa vivência em algo que é bom e que nos traz felicidade. Se forem pequeninos pacotes de felicidade já não é mau. Naquilo que eu faço, ou fazia, a esperança está ligada ao desfecho de uma luta. A existência dessa luta alimenta a esperança, baixar os braços mata-a. Quando a pessoa acha que vai ficar melhor, isso ajuda o processo de cura. Portanto, o pessimismo é uma profecia que se cumpre.

E quando a esperança aponta para trás, para voltar a ser-se o que se era? Aí pode ser destruidora. 
Pode haver um sentimento nostálgico — como eu era e como estou agora. Aliás, volto ao Fernando Gil, que morreu com uma doença oncológica e rápida. Num e-mail, ele disse-me: “Já não posso ouvir que estou com bom aspeto!” Este é o tratamento superficial da esperança, uma espécie de pomadinha. Estás com tão boa cara, nunca te vi tão bem! E a pessoa sente-se miserável. Para alguém que está doente isso é negar a doença, é muito desagradável.

É uma mentira?
É uma mentira. Nesse texto do Tolstoi, a certa altura chega um cunhado que o protagonista não via há muito tempo. E quando o cunhado olha para ele, a sua face é um espelho. Ele vê na reação do cunhado quanto mudou. É muito forte esta ideia de que a face do outro é um espelho do nosso estado.

Disse um dia que o ideal da cirurgia é sair com a bata imaculada. Na vida isso não é possível. Tem arrependimentos, remorsos? 
Não tenho arrependimentos, tenho coisas que preferia não ter feito. Guardo-as para mim, com vergonha. E consigo recuar à minha infância. Há episódios da minha infância em que não fui autêntico, em que fiz mal. Porém, se me perguntar se no percurso da vida quereria ter feito de outra maneira, respondo-lhe que não. Por uma razão: acho que fui mais um barco de papel deitado ao rio do que um barco com remos a tomar uma direção. Deixei-me ir na corrente das coisas que me aconteciam. Não ficou nada por fazer, a não ser falar alemão, tocar um instrumento como piano, violoncelo ou clarinete, ou ver as terras que gostaria de ter visto e que agora, velho, já não verei. Gostei muito de África e gostaria de ter conhecido as outras Áfricas, mas fui sempre muito absorvido pelo meu trabalho. A vida chupou-me o tempo.

A metáfora do barco de papel não se adequa ao estudante obsessivo e focado que foi.
Isso fui eu a aprender a andar. Depois, um dia, veio cá um senhor americano, convidou-me para ir a Nova Iorque, fiz as malas e fui. Deixei que as coisas me acontecessem e aproveitei as oportunidades que surgiram.

Disse uma vez: “Sou das pessoas mais benevolentes que conheço”. Não disse bondosa. Qual é a diferença? 
A benevolência surge da capacidade de reconhecer nos outros os nossos defeitos. Da irmandade secreta entre as faltas que os outros cometem e as que cometemos. Mas tem limites. Há coisas com que já não sou assim tão tolerante. Nomeadamente, algumas falhas de carácter. Não que isto tenha mérito moral — não tem nenhum.

Já o Yascha Heifetz teve aquela tirada: “Há quem venha aos meus concertos para ver se toco uma nota errada.” Teve de lidar com a inveja, sentimento que — dizem — é muito português? 
Eu sou português, e o Schadenfreude não é um conceito nosso. O regozijo pelo azar do outro está na natureza humana. Não sei por que razão foi preciso acrescentar esse condimento tão azedo ao ser humano. No entanto, se me perguntam se fico satisfeito quando o Benfica perde, tenho de dizer que sim. O Gore Vidal tinha uma frase extraordinária: “Com o triunfo dos meus amigos morre sempre um bocadinho de mim.” Mas isso eram rivalidades entre escritores, que como sabe é uma coisa violenta. Agora, se sinto regozijo pelos azares dos outros, acho que não.

E os outros com os seus? 
Pergunte-lhes. Tenho alguma evidência de que não fui imune a calúnias, algumas delas gravíssimas e perturbadoras. Porém, a inveja é um sentimento que se autocastiga, quem a sente deve passar tão mal que nem vale a pena preocuparmo-nos com isso.

Nas memórias que está a escrever, como decidiu o que iria incluir? Que retrato de si próprio vai daí resultar?
É o retrato de uma trajetória, cujo título em inglês seria sem dúvida “On the Making Of a Neurosurgeon”. Numa palavra, como é que fui feito. Sempre me interessou desmontar os mecanismos da minha própria educação: como me fiz assim, quem me fez assim, quando, onde. Não fiz um relato cronológico, fi-lo por blocos.

Fala do seu pai? 
Falo do meu pai. Já escrevi dois textos sobre o meu pai — um deles chama-se “História de um velho”. Foi uma figura importante para os seis filhos, com tudo o que isso implica de bom e de mau, de alegria, de partilha, de sofrimento, de angústia. Eu tive com ele uma relação muito complexa. Mas, sabe, quando a alma é bem formada a biologia acaba por vencer. Neste caso, o pai derrotou o filho. Quando percebi que assim era, fiquei em paz. Soube que ia perder, porque não estava equipado para a última revolta, para matar o pai.

Dele, o que mais o marcou? 
O rigor. Era a pessoa que estudava nas fontes, que conferia a citação correta, que procurava a verdade científica, não deixando pedra nenhuma por virar. Era de uma exigência enorme. E depois tinha outra dimensão extremamente desagradável: era de uma enorme arrogância intelectual. Muitas vezes me rebelei contra isso. Por exemplo, ele detestava o Montaigne e eu idolatrava-o.

Fez o contrário, como pai? 
Tentei passar às minhas filhas o sentimento de terem uma rede, de que sempre que elas caíssem eu estaria cá em baixo para as segurar. Acho que o que elas sentem em relação ao pai é uma extraordinária segurança. E tolerância. Cada uma fez o que lhe apeteceu. Há uma frase de Tolstoi que gosto muito de citar: “Tout comprendre c’est tout pardonner.” Esta foi a divisa na relação com as minhas filhas.

Sente saudades de operar? 
Retirei-me em junho. Foi muito emotivo para os que trabalhavam comigo. Para mim, naquele dia, saí de cena, baixou o pano. Sem lágrimas, não senti nada. Tenho sonhos em que estou a operar, em geral a medula — um trabalho meticuloso que eu era muito bom a fazer. Se falhar, a pessoa fica paralisada. No sonho, entro na sala de operações e digo: estou cansado, não quero estar aqui. Por vezes, imagino que tenho uma coluna aberta e penso: dá cá os instrumentos que eu sei fazer isto. Sei, mas já passou.

Texto originalmente publicado na edição de 24 de dezembro da Revista E
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