segunda-feira, 3 de outubro de 2016

UM ACONTECIMENTO

Pedro Mexia
Expresso, 20161001

A novidade é uma das marcas distintivas da tradução que Frederico Lourenço fez da Bíblia grega 

Em 1973, o romancista Shusaku Endo, o “Graham Greene japonês”, publicou um livro intitulado “Uma Vida de Jesus”, cujo conceito é estarrecedoramente simples: contar a história de Jesus como se fosse a primeira vez que estivesse a ser contada, uma vez que o Japão é uma das nações onde o cristianismo teve menos impacto. É-nos difícil imaginar essa novidade. Num país de tradição católica como Portugal, há, ou havia até há pouco tempo, uma familiaridade com as histórias da Bíblia que não dependia sequer da leitura efectiva ou da fé. A Bíblia fazia parte da nossa cultura, e não parecia uma ‘novidade’, excepto aos devotos ou aos convertidos. 
A novidade é uma das marcas distintivas da tradução que Frederico Lourenço fez da Bíblia Grega. Porque se trata justamente de uma primeira vez, em termos da amplitude do cânone, bem como da versão escolhida, visto que a fonte mais comummente usada é o latim. O mais usual, também, é termos Bíblias traduzidas por comités de especialistas, um costume que vem desde a famosa Bíblia dos Setenta. Podemos por isso dizer que a tradução de Lourenço vale, em termos de trabalho, setenta vezes sete. É um empreendimento que fica, à imagem de outras Bíblias traduzidas por uma única pessoa, como a versão setecentista de António Pereira de Figueiredo, um padre católico, ou a versão seiscentista de um missionário protestante, João Ferreira de Almeida, que é aliás a minha favorita, devido ao belíssimo português em que está escrita. 
O grande teólogo alemão Karl Rahner definiu a Bíblia, em especial os Evangelhos, como: 1) uma história da salvação; 2) historicamente acontecida; 3) transmitida verbalmente; 4) dirigida à Igreja e 5) final, ou seja, definitiva. Lourenço atém-se sobretudo ao terceiro item. Esta não é uma Bíblia dirigida aos crentes, mas uma versão textual. Frederico Lourenço, e isso talvez surpreenda muita gente, defende que a Bíblia é um conjunto de livros escritos para serem tomados à letra. Argumenta o tradutor que, com excepção de textos mais poéticos e alegóricos, ou das parábolas de Jesus, o texto bíblico quer dizer aquilo que diz. Mas o que é que o texto diz? 
Uma das vantagens de traduzir a partir do grego é que, como se explica na introdução aos Evangelhos (o primeiro volume a ser editado), a versão grega do Antigo Testamento era aquela que os evangelistas conheciam. Os Evangelhos foram redigidos por judeus helenizados, e as primeiras comunidades cristãs usavam o texto grego. E sabemos como o cristianismo, que ganhou dimensão institucional através do Império Romano, tomou de empréstimo a densidade filosófica do pensamento grego. Não obstante, o grego usado nos Evangelhos, explica Lourenço, é um grego simples, acessível, sem a sumptuosidade do Antigo Testamento. A preocupação do tradutor é dupla: devolver ao leitor moderno o sentido grego das palavras gregas antigas e apostar na clareza. As traduções anteriores de Lourenço, nomeadamente a de Homero, garantem o rigor, a clareza e a beleza do texto; mas o que quer dizer quanto à questão do sentido grego das palavras gregas? Há polémicas linguísticas conhecidas e que esta tradução discute. Os “irmãos” de Jesus serão irmãos ou primos? E a expressão “virgem” quer mesmo dizer “virgem”? Os problemas doutrinais e dogmáticos que derivam dessas diferentes soluções são evidentes, e ainda mais quando Frederico prefere o termo “erro” ao termo “pecado”, uma opção que faz sentido em termos gregos, digamos, mas que conduz à implosão de um conceito fundamental do cristianismo. Do ponto de vista judaico-cristão, um “pecado” jamais se confunde com um “erro”. Um pecado compromete a pessoa integralmente; um erro é apenas um equívoco que acontece, por debilidade ou descuido. 
Faço parte das pessoas que se consideram bibliocêntricas, até porque uso as narrativas e as frases da Bíblia como parte da minha linguagem quotidiana. E confesso que simpatizo com o credo protestante sola scriptura, que supõe a primazia da Bíblia sobre outros ensinamentos; quando visitei igrejas evangélicas fiquei impressionado com as Bíblias carregadas de marcadores, fitinhas, anotações, páginas dobradas, a Bíblia como estudo diário. Porém, mesmo quem não acredita no judeo-cristianismo, ou o desacredita, dificilmente pode ignorar estes textos, esta biblioteca, com as suas metáforas, interdições, bem-aventuranças. 
É verdade que podemos ter a Bíblia que mais nos interesse ou em que nos reconhecemos mais. Uma Bíblia só com as referências históricas que se confirmem no historiador judaico-romano Flávio Josefo. Uma Bíblia sem as passagens sobrenaturais, como a de Thomas Jefferson. Uma Bíblia do Deus inclemente. Uma Bíblia do Deus compassivo. Mas acredito que a Bíblia, que todos reconhecem como um tratado ético e um colosso poético-narrativo, quer-se algo mais do que isso. Pretende ser a história de vários acontecimentos que desembocam num acontecimento inaudito. E é difícil lermos a Bíblia sem que isso nos afaste ou nos fascine, sem que tropecemos naquele jovem vestido de branco que diz a um grupo de mulheres: “É Jesus, o Nazareno, que procurais, o crucificado? Ressuscitou. Não está aqui”.
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