sábado, 1 de outubro de 2016

Gostar da escola

Inês Teotónio Pereira
DN 20161001

Antes de entrarem para o primeiro ano os meus filhos ansiavam começar a escola "a sério". Tenho fotografias de todos eles no seu primeiro dia de aulas exibindo sorrisos e mochilas novas orgulhosos por já serem crescidos. Depois, enfim, é a história que se conhece. O entusiasmo vai esmorecendo ao ritmo dos trabalhos que vão tendo e da ansiedade que vão ganhando. As educadoras pacientes que os mimavam são substituídas por professores que têm pouco tempo, paciência e muitos deles até vocação para criarem cumplicidades. Começa então a batalha que se desdobra em várias fases. São as birras para irem para escola, depois a resignação e mais tarde a rendição. Em casa, pressionamos ao ritmo que os professores nos pressionam: velocidade de leitura, cálculo matemático, concentração, cadernos limpos, pouca conversa. A escola passa a ser o centro das nossas vidas. Nos recreios travam-se outras batalhas onde se põe à prova a autoestima de cada um, a confiança e a competição impiedosa como só as crianças sabem ser. Há miúdos que sofrem em silêncio, que se recolhem, e outros que não se rendem, não param e desafiam a ordem - normalmente são aqueles que preferem dizer que não querem a confessar que não conseguem. São os que destabilizam, que perturbam a sala de aula e que "deviam ser vistos". O primeiro dia de aulas é, nesta altura, uma miragem. É verdade que conforme eles crescem, os problemas vão-se resolvendo, os resultados mais tarde ou mais cedo aparecem e a determinada altura já se respira alguma paz. E também é verdade que grande parte deles, senão a maioria, sobrevivem bem à escola e até gostam. E são estes que eu acho extraordinários. E porquê? Porque as escolas de hoje pouco têm que ver com a vida dos nossos filhos, com os seus interesses, com a forma como eles pensam ou veem o mundo. A escola do século XXI funciona ainda à imagem e semelhança da escola do século XIX apesar de tudo, absolutamente tudo, ser diferente. Qual é a lógica de insistir que miúdos de seis anos aprendam a fazer o Q maiúsculo manuscrito? Nas cabeças deles é um esforço sem sentido ainda por cima para quem nem a sabe ler. E na nossa também devia ser.
Enviar um comentário