segunda-feira, 3 de outubro de 2016

O apagão

João Vieira Pereira
Expresso 20161003

O pior cego é aquele que não quer ver. E estamos rodeados deles. A geringonça tem gerido com mestria a serenidade do povo. Elegeu as suas vítimas e faz delas cobaias da receita do desastre. Não é apenas a paz com os sindicatos do PCP ou a pele de ovelha no lobo que é o Bloco. O Partido Socialista sabe a quem tem de agradar para perpetuar a vida da solução política engendrada. Ao volante do destino do país engatou a marcha atrás a acelerou em força. Vamos lá satisfazer o funcionário público em detrimento do cidadão, o professor em vez do aluno, o pensionista pelo contribuinte, o trabalhador contra o cliente ou o empresário. 
A geringonça meteu os grandes grupos de eleitores e de pressão social a caminhar no mesmo sentido. Só que na direção contrária à do progresso ou crescimento. O que interessa é garantir o voto e a paz social. Adormeceu o povo com promessas de curto prazo e ainda tem o desplante de sorrir perante o desastre que criou. 
Portugal desce oito lugares no ranking da competitividade, mas ninguém liga. Vamos crescer metade do que foi possível alcançar no ano passado, mas não se passa nada. As metas orçamentais falham todas, mas está tudo bem. Cortam a fundo no investimento público provocando o caos nas empresas públicas e privadas e comprometendo o crescimento dos próximos anos, mas isso agora já não importa. 
Uma das poucas vitórias alcançadas durante o período da troika foi a perceção da necessidade de reformas. Isso passava por uma administração pública diferente, por uma estrutura alternativa de despesa, por um novo enquadramento laboral, por um mercado de energia mais eficiente, e por uma moldura fiscal competitiva. Reformar era a palavra de ordem. Palavra essa que a geringonça aboliu. 
De um dia para o outro já não é preciso reformar nada. Aliás, a ordem é de retrocesso na maior parte destas áreas. Na sombra, a nova maioria parlamentar está a planear destruir todas as pequenas vitórias que nos deram mais competitividade, principalmente na área laboral e fiscal. 
Os quatro anos da troika trouxeram-nos um brutal aumento de impostos. Esse não desapareceu. Pelo contrário. Vai agravar-se. Substituir impostos diretos por indiretos, como já aconteceu e irá continuar tudo menos justo. Até o PCP percebe isto. Mas mesmo assim embarca nesta nova deriva fiscal. 
Este caminho só nos leva ao abismo. E quando se aponta este destino como o mais provável ainda gritam, a quem os ousa contestar, que somos os arautos da desgraça. 
É triste este torpor que tomou o país. 
Pode não ser amanhã, nem para o ano. Muito provavelmente não será com este Governo, mas estamos outra vez a correr em direção a uma parede de betão e desta vez poderá não haver um colchão europeu para nos aparar a queda.
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