Final do dia
Inês Teotónio Pereira
ionline 5 Out 2013
ionline 5 Out 2013
O grande desafio de um adulto que esteja a viver esta circunstância é manter a concentração. As crianças falam todas ao mesmo tempo
A parte má de se ter muitos filhos é o fim do dia. É um pesadelo. O final de um dia numa casa cheia de crianças é um sítio não aconselhável a frequentar por pessoas sensíveis, idosos ou utentes com problemas cardíacos. Alguém com este perfil não deve, em circunstância alguma, aproximar-se num qualquer final de dia de uma casa onde vivam mais de três crianças. E se souberem que ali vivem seis, aconselho-o a afastar-se pelo menos dois quilómetros. É que o ambiente que ali se vive - só para terem uma ideia - é quase tão infernal como aquele dia no Pingo Doce das promoções de 50 por cento. A agitação e a gritaria são mais ou menos as mesmas.
Toda a gente me pergunta como é que eu faço para despachar seis crianças de manhã (despachar é mesmo o termo); para as pessoas em geral a grande incógnita sobre a rotina da minha vida prende-se com as manhãs. Não, meus senhores, as manhãs são um passeio à beira-mar: estamos todos meio a dormir e a única pessoa que grita sou eu. A altura verdadeiramente crítica é o final do dia. As crianças não se dão bem com esta fase do dia. Passam-se. Desde bebés que são assim. Em bebés choram, têm dores de barriga e agitam-se mais que o resto do dia sem razão aparente ou mais rebuscada. É assim porque sim. E quando crescem ficam desaustinados.
Enquanto nós, pessoas normais, estamos arrasados às sete da tarde e suspiramos por paz, por silêncio e por descanso, o nosso cérebro entra em ponto morto, as crianças não. No final do dia as pilhas delas aparecem milagrosamente recarregadas. A escola, que devia dar cabo deles, não tem essa capacidade. Ao final do dia é quando se dão todas as discussões, é quando se verifica a capacidade vocal de cada um, é quando eles se lembram de contar imensas histórias, de dar milhares de recados, de se queixar da vida e até de expressar a sua incredulidade com alguns temas metafísicos, religiosos ou científicos. Tudo isto ao mesmo tempo que estudam, tomam banho, arrumam as roupas e os livros da escola, brincam, vêem televisão ou estão no computador. Com dois ou três, a coisa faz-se bem. Mais que isso, é um hospício. Por isso é que eu tenho a certeza que 96 por cento dos castigos dados às crianças em todo o mundo são referentes a actos, a pensamentos e omissões de cariz asneirento verificados nesta altura do dia.
O grande desafio de um adulto que esteja a viver esta delicada circunstância é manter a concentração. As crianças falam todas ao mesmo tempo, ou seja, não acham que tenham de estar caladas só porque alguém já está a falar com o mesmo interlocutor. Por isso, no caso do estudo, têm dúvidas em simultâneo. E dúvidas absolutamente distintas, porque as idades variam. Temos, portanto, de manter a concentração quando somos forçados a responder a questões sobre contas de somar, expressões numéricas com números negativos, a crise do século xiv, como se faz o i e sobre o esqueleto. Ao mesmo tempo que vamos apanhando do chão a chucha da criança mais nova, que vai refilando porque quer colo. Passado este desafio ficam a faltar apenas os banhos, a arrumação, o jantar e a gestão das discussões, das brincadeiras e dos gritos.
É por causa dos finais do dia que a minha avozinha alegava que onde as crianças estão bem é nas fotografias: onde não há perigo de acordarem. A boa notícia é que, por fim, todas crescem. E tal como o socialismo se vai esbatendo com a idade, também os finais do dias vão pacificando. Até ao conservadorismo final, em que passam a amantes da paz, da ordem e da serenidade.
Comentários