As eleições em dez capítulos

ALBERTO GONÇALVES
DN 2013-10-06

Prólogo. Para começar, fica a declaração de desinteresses. Nunca votei em eleições autárquicas, não quero saber quem manda na autarquia da minha terra e, na maioria das vezes em que penso nisso, preferia que não existisse autarquia nenhuma. Deixem-me sonhar: um Governo Civil bem apetrechado, com meios para delegar tarefas em empresas privadas, chegava e sobrava para o gasto. Com a vantagem de que o gasto seria bem menor. E os nossos impostos também. Claro que as câmaras municipais constituem os verdadeiros centros de emprego, mas enquanto essa não for assumida como a sua real, e talvez única, serventia, não consigo levá-las a sério. Dito isto, sou tecnicamente um comentador profissional, pelo que o dever de ofício me obriga a emitir meia dúzia de palpites sobre os acontecimentos de domingo passado.
1- O PSD foi arrasado. Porém, tal não sucedeu porque, conforme 638 peritos afirmaram com firmeza, os eleitores desejassem punir a austeridade. Simplesmente o rol de candidatos escolhidos em cinco ou seis dos maiores centros urbanos levantava dúvidas angustiantes acerca do estado mental dos encarregados da selecção. Quando os candidatos não eram um completo embaraço (ver Guarda ou Braga, sff), o PSD até ganhou. Ou então os cidadãos de Braga ou da Guarda vivem numa redoma de prosperidade e não sentem os apertos vigentes. Convinha que o fisco investigasse essa gente.
2- O PS venceu. Mais votos, mais autarquias e mais mandatos não deixam dúvidas. As dúvidas prendem-se com os sinais e as lacunas da vitória. O notável resultado em Lisboa é um aval ao estilo de oposição do dr. Seguro ou uma prova de que, pelo menos na capital, os socialistas aspiram a substituir o dr. Seguro com urgência? E que conclusões retirar do massacre sofrido no Alentejo? E das derrotas no Porto e em Matosinhos? E da queda face a 2009?
3- Os êxitos do PCP a sul demonstram que as divisões do PREC não caíram do céu. As famosas "leituras nacionais", responsáveis por detectar o regresso dos comunistas a tempos áureos, esquecem-se que em dois terços do território os comunistas primam, sempre primaram, pela irrelevância. Embora me aborreçam as queixinhas do "centralismo", a verdade é que uns enclaves na Grande Lisboa e no Alentejo não esgotam o País.
4- O Bloco "autárquico", cuja saúde já não se recomendava, faleceu. Perdeu a única câmara que tinha e desceu para zero, conforme a matemática obriga. Não perdeu o sentido de humor involuntário, ao resumir, por intermédio de uma eurodeputada, a noite eleitoral: "Um vendaval contra o PSD." Foi o mesmo que ouvir o extremo-esquerdo do Pinhalnovense criticar o mau início de época do Benfica.
5- O CDS multiplicou a quantidade de autarquias por cinco, o que soa fantástico. Ganhou cinco, o que é um nadinha pífio. Ou a história do castigo da austeridade não passa de uma patranha ou os esforços do CDS por se demarcar do Governo que integra funcionaram em pleno e inúmeros portugueses ignoram que o dr. Portas é sequer ministro.
6- Os "independentes", escusado lembrar, são sujeitos que os partidos escorraçaram ou que os partidos não patrocinaram. É o caso de Rui Moreira, o comentador da bola (já prometeu abrir os paços do concelho às festarolas dos clubes), que venceu no Porto não por representar uma alternativa a um sistema alegadamente caduco mas por representar uma alternativa ao dr. Menezes, que confundiu os habitantes do Porto com os de Gaia, e ao dr. Pizarro, sem ofensa uma figura simpática.
7- Oeiras é - há quem não se canse de o repetir - um celebrado refúgio de licenciados, doutorados e vultos académicos em geral. Se tivesse duas dúzias de prémios Nobel a passear nas ruas, não se distinguiria de New Haven. Ou distinguiria: no modo como há quatro anos elegeu um indivíduo investigado pela polícia e em 2013 elege, por interposta pessoa, um indivíduo metido na cadeia - por práticas ilícitas com o dinheiro dos exactos munícipes que o veneram. Além de um viveiro de génios, Oeiras é o concelho nacional com mais masoquistas.
8- O tipo de "progresso" madeirense, sustentado por um Estado tutelar e devedor, sofreu um abalo talvez definitivo. Em 11 câmaras, o PSD perdeu 7. Se não for demasiado cedo para a graçola, é possível que a médio prazo o dr. Jardim também vá na enxurrada. E se procuram um governo verdadeiramente afectado pelas "autárquicas", procurem na Madeira.
9- No momento da consagração, António Costa discursou contra o "disânimo" (é assim que ele diz) e, pelo nível de excitação, aparentava ter chegado a primeiro-ministro. Chegou apenas à Câmara de Lisboa, onde aliás já estava. Para voos maiores, falta-lhe desalojar o dr. Seguro e, para desgosto seu e de boa parte do PS, não se imagina como conseguirá fazê-lo antes de 2015. Sobra-lhe seguir o conselho de Francisco Assis e tentar Belém, por acaso o sonho de outro socialista e comentador televisivo.
10- Onde vais, Rio que eu canto? Quer dizer, cantar é exagero. Mas continuo a achar que o dr. Rio foi, pelo menos nos centros urbanos de que tenho uma ideia, dos poucos autarcas a não enxovalhar os cidadãos que os elegeram. Daqui em diante, o dr. Rio parece decidido a desorientar os cidadãos que gostariam de o eleger. Apesar de sucessivas declarações públicas, ainda ninguém percebeu o que o homem quer - para ele e para o País. Liderar um partido ou ficar em casa? Governar com a sensatez que demonstrou no Porto ou com o populismo que arrisca nas declarações? Há um certo Rui Rio que faz falta. E outro Rui Rio próximo da redundância. Infelizmente, são inseparáveis.
Epílogo. Quando os políticos dizem que ouviram as pessoas, é mentira: apenas fingiram ouvir os poucos azarados incapazes de lhes escapar. A verdade é que neste critério as "autárquicas" roçaram a perfeição. O ocioso rigor da CNE afastou os media da campanha, a boçalidade do candidato médio afastou a campanha dos cidadãos e, resumindo, o indivíduo avisado conseguiu atravessar a balbúrdia praticamente sem dar pela respectiva existência. E sou capaz de jurar que não dará pelas respectivas consequências. Com raras excepções, as câmaras não mudam em função dos senhores que as ocupam. E, decididamente, o Governo não muda em função dos senhores que ocupam as câmaras. Já esta semana, ofereceu nova exibição do seu estilo peculiar anunciando o advento de reformas e impondo de facto a manutenção de uma carga fiscal absurda. A oposição "moderada" protesta, não porque quisesse as reformas mas porque não sabe o que quer. E a oposição extremista protesta porque sabe o que não quer: os impostos, as reformas, a troika, o Governo, as obrigações da dívida, as condições do crédito, a alta finança, a baixa finança, o euro, a Alemanha, o dólar, os EUA, os especuladores, o Ocidente, o Olhanense e a realidade em geral. As autárquicas só serviram para, conforme se usa dizer, desviar as atenções dos verdadeiros problemas do País. Sobretudo do maior de todos eles: Portugal. Quinta-feira, 3 de Dezembro.
A vida é lixada
Todos os jornais noticiaram os protestos do movimento Que se Lixe a Troika nas cerimónias do 5 de outubro. O que nem todos os jornais noticiaram foi a quantidade de participantes: cerca de 20, segundo o Expresso. Chamem-me antiquado, mas ainda sou do tempo em que uma manifestação envolvia alguns milhares de criaturas. Vinte desgraçados a exigir a demissão do Presidente e do primeiro-ministro não traduzem exatamente o descontentamento da população, de resto plausível: traduzem um problema psiquiátrico de que o SNS devia ocupar-se. Infelizmente, como se sabe, a troika encolheu os respetivos recursos. Em vez da ambulância do INEM, consta que foi a polícia a deter um desgraçado. Ou, se a imprensa quiser destacar o excesso de zelo das autoridades, cinco por cento dos manifestantes.

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