Explicação a Arménio Carlos

João Miguel Tavares Público, 10/10/2013

Há algo de absolutamente enternecedor em viver em Portugal: somos por vezes um país tão tenrinho, tão delicado, tão brando nos seus brandos costumes, tão cutchi-cutchi, que conseguimos este feito notável que é passar mais de uma semana a discutir se a CGTP pode ou não realizar uma manifestação na Ponte 25 de Abril. "Será que devemos dizer-lhes que não?", medita o ministro Miguel Macedo, rodeado de pareceres negativos. "Se calhar vão acusar-nos de impedir o povo de se manifestar."
Sim, caro ministro, vão acusá-lo de tudo isso e de muito mais. Ontem, um dirigente da CGTP, confrontado com a dificuldade em receber autorização para desfilar numa ponte que tem dois quilómetros de comprimento e 70 metros de altura, já falava de "veto político" e de "tentativa de coarctar a liberdade de manifestação". Tão certo quanto a necessidade de Karl Marx aparar a barba, seguir-se-ão em breve acusações de censura e de inadmissíveis ataques por parte do Governo a direitos constitucionalmente protegidos.
Na terça-feira, Arménio Carlos surgiu no pequeno ecrã muito agastado, munido de cópias (a cores e em formato A3, as mais caras) de fotografias da Meia Maratona de Lisboa, e uma pergunta alegadamente lógica com a qual pretendia desmontar as dificuldades logísticas: "Por que razão é que [as autoridades] seguiram um determinado tipo de comportamento para a autorização das corridas e agora estão a invocar pretextos que são falsos, que são mentirosos, para tentar pôr em causa a realização da iniciativa da CGTP no próximo dia 19?" Arménio, amigo, aqui estou eu para esclarecer a sua atribulada alma: a manifestação da CGTP não tem o mesmo tratamento que "as corridas" porque... hum, deixe cá ver... realmente, é difícil responder a isto... será porque... uma manifestação não é uma corrida? Ena, às tantas é mesmo por causa disso! Uma manifestação não é uma corrida!
A confusão é compreensível, porque para a CGTP manifestação é desporto. Da mesma forma que uma pessoa sai de manhã para fazer jogging e baixar a barriga, a CGTP organiza desfiles até São Bento para baixar a popularidade do Governo. Mas como este Governo é uma gordura muito entranhada, um pneu neoliberal difícil de remover, organizar o desfile do costume já não é suficiente. Está muito visto. Não emociona ninguém. As televisões já se aborrecem. Os trabalhadores começam a desmobilizar. E vai daí, uma luminária ter-se-á lembrado dos saudosos irmãos Pinto e propôs esta manifestação na Ponte 25 de Abril, sonhando certamente com um remake de 1994. Se falta espontaneidade reivindicativa ao povo, nada como apostar num cenário inspirador, a ver se o caldo revolucionário começa a borbulhar.
Problema: às tantas o direito de manifestação consagrado na Constituição não é um direito de manifestação em qualquer lado. Às tantas fechar a ponte para um evento desportivo único e controlado não é o mesmo que fechar a ponte para mais uma manifestação contra as políticas do Governo. Às tantas "fruição" e "contestação" não são sinónimos. Às tantas os milhares e milhares de euros pagos pela organização da Meia Maratona em segurança pública e privada iriam ser empurrados pela CGTP para o erário público. Às tantas isto é apenas uma ideia parva e provocadora para embaraçar o Governo. E o Governo, claro, com o seu talento para as meias tintas, deixa o embaraço ganhar volume, em vez de dizer na hora certa as únicas três letras que se impunham: N-Ã-O.

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