Hannah Arendt: retrato do mundo que herdámos

JOSÉ MARMELEIRA   04.01.17  PÚBLICO

Uma filósofa que não desistiu de agir, de falar e pensar sobre os terríveis acontecimentos que condicionaram a sua vida. Vida Activa: O Espírito de Hannah Arendt, documentário de Ada Ushpiz, é um retrato do mundo que herdámos.



Vida Activa: O Espírito de Hannah Arendt, o documentário de Ada Ushpiz, está repleto de frases que alarmam (sem proselitismo, sem arrogância) o espectador. Chegam retiradas dos livros da autora, e são lidas devagar, para que possam ser escutadas. Fazendo referência ao terrível poder do homem, uma ressoa em particular: ele pode realizar fantasias infernais sem que o céu caia e o chão se abra sob os seus pés. Em fundo, correm as imagens dos campos de concentração, dos algozes nazis e as suas vítimas. Descrevem o Inferno na terra e situam historicamente as palavras ditas.Nota prévia, fundamental. O retrato de Hannah Arendt (1906-1975) que se vai construindo neste filme é indissociável do Holocausto nazi, com as suas máquinas da morte, do fenómeno do totalitarismo, com a sua destruição do mundo comum e a erradicação do conceito de ser humano. Dito de outro modo, a reconstituição da vida individual da pensadora nunca cessa de ser, também, uma reflexão sobre os acontecimentos e fenómenos que marcaram as circunstâncias e o rumo dessa vida. Esse é o ponto de partida do documentário, desde logo anunciado pelo filósofo americano Richard Bernstein, amigo da autora, quando afirma que a experiência do nazismo e a interrogação sobre os horrores do Holocausto são as chaves que permitem compreender, com profundidade, toda a sua obra.


O documentário recorda-nos uma parte da biografia. Judia alemã de uma família burguesa, não religiosa, Hannah Arendt, então uma estudante de filosofia, abandonou a Alemanha em 1933, passou pela Checoslováquia e Suíça, e interrompeu a sua viagem na capital francesa. Em Paris, viria a descobrir tanto o abandono da condição de refugiada como o auxílio da solidariedade e do amor. Numa sequência de peripécias, cruza-se com Heinrich Blücher (que viria a ser o segundo marido) e acaba por ser internada num campo de refugiados, antes de fugir para os Estados Unidos, onde se estabeleceu, retomando a vida académica. Foi sob a inspiração dessas angustiantes aventuras que a sua obra se materializou, problematizando conceitos, sem recorrer às categorias habituais do pensamento político, derrubando clichés, a fim de iluminar o presente. Ousadia de uma autora que ainda não sabemos em que gaveta colocar.

Ousadia e coragem. O significado destas duas palavras é importante para perceber a tese do documentário: a de que Hannah Arendt nunca desistiu de compreender os terríveis acontecimentos da sua época. É sobre essa mulher – disponível para falar e agir na esfera pública – que os convidados de Ada Ushpiz intervêm, discutindo intervenções, opiniões ou formulações teóricas. Se a simpatia e a consideração intelectual são evidentes, a polémica e a crítica não abandonam as suas vozes, aspecto que certamente a própria Arendt acolheria com agrado, tal foi a importância que deu à pluralidade e ao debate de opiniões. No seguimento da reportagem que realiza para a New Yorker do Julgamento de Adolf Eichmann, em Jerusalém, em 1963, desenvolve o conceito de “banalidade do mal” a fim de retirar aos crimes nazis qualquer dimensão sobre-humana ou demoníaca. A polémica emergiria de imediato, com os ataques violentos dos líderes da comunidade judaica e as críticas indignadas de amigos. Não aceitam o conceito e sobretudo não lhe perdoam a acusação dirigida aos Conselhos Judeus por supostamente terem cooperado com os nazis. Sobre esse tema, fará uma discreta contrição, mas até aos dias de hoje a controvérsia não se apagou. No documentário, a historiadora americana Deborah Lipstad considera que Hannah Arendt não percebeu que Eichmann era um anti-semita radical, opinião partilhada por Judith Butler, mas só até certo ponto. Esta filósofa americana argumenta que a banalidade de que Arendt falava consistia fundamentalmente na aceitação de uma ideologia que tornava banal o assassínio, os crimes. E que essa banalidade é que era hedionda.

Para Arendt, o que estava em causa era o facto de aqueles homens terem perdido a capacidade de se imaginarem no lugar dos outros, de já não conseguirem ver a realidade, de no frémito das suas actividades não conseguirem parar para pensar. Destituídos de discernimento, absortos num não-pensamento, entregavam-se ao mundo falso da ideologia. A sua predisposição para ideias que explicavam os factos como leis, que eliminavam a espontaneidade e as coincidências, era total. Fugindo à realidade, precipitavam-se numa espécie de ficção que criava a sua própria consistência: a da lógica. Se os judeus, as classes decadentes, os enfermos eram vermes, obstáculos às leis da história ou da natureza, então era lógico que fossem eliminados ou exterminados. Muitos intelectuais alemães também soçobraram, por momentos, a esta cegueira. Hannah Arendt acusa-os de não terem percebido o que tinham à sua frente, de, diante do desenrolar dos acontecimentos, terem insistido em legitimar Hitler e o nazismo com as mais mirabolantes e sedutoras teorias. Alhearam-se tragicamente da realidade, juízo que o documentário parece estender a Heidegger, quando recorre a depoimentos de Emmanuel Faye. Este filósofo e estudioso francês lê passagens de textos do autor de Ser o Tempo onde dificilmente se refuta uma apologia do nazismo. Jerome Kohn, antigo aluno de Hannah Arentd, não vai tão longe, mas admite que o filósofo alemão também suspendeu o pensamento para colaborar com o terror, deixando-se levar pelas mentiras do nazismo.

Centrado nestes debates, Vida Activa: O Espírito de Hannah Arendt desce por vezes à intimidade da pensadora, iluminando com a meia-luz da correspondência pessoal a relação amorosa e intelectual com Heidegger e a sua profunda amizade com outro filósofo, Karl Jaspers. A esse propósito, surgem no filme dois momentos particularmente comoventes, que humanizam o seu pensamento: aquele em que, diante da inquirição, quase indignada, de uma sobrinha, sobre a necessidade de voltar a visitar Heidegger, responde que “há coisas mais fortes do que o Homem”; e aqueloutro em que, nas palavras emocionadas de Jerome Kohn, ficamos a saber que entre ela e Jaspers o medo de se ofenderem mutuamente não existia, tal era a amizade que os unia.
Feito este desvio pela esfera privada, o filme resgata Hannah Arendt para a realidade do mundo dos homens, o mundo da política. Foi aí que se fez pensadora, como tão bem demonstra a sua inquietação face aos caminhos do sionismo depois da Segunda Guerra Mundial. Nos anos 40, a formação do Estado de Israel já merecia da sua parte reservas e receios. Escreve, em tom que se diria profético, que se a nossa casa não é reconhecida pelos vizinhos como tal, então não é uma casa, mas uma ilusão que se tornará num campo de batalha. Depois de várias imagens de refugiados palestinianos, Judith Butler toma a palavra lembrando a importância que Hanna Arendt dava ao conceito de pluralidade. Os alemães deviam ter vivido com os judeus, como os judeus deviam viver com os palestinianos. Só a construção de um mundo comum, que é, afinal, a sua partilha, e não a sua instrumentalização, pode ajudar o homem a suportar esse grande peso que é a humanidade e a resistir à tentação das soluções totalitárias que sobreviveram aos totalitarismos. Ao perigo de nos tornarmos supérfluos, devemos responder com lembrança de que todos somos únicos e que essa irredutível singularidade corresponde à capacidade de agir, de falar e pensar.
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