segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

A banalização da violência

RITA BRUNO     09.01.2017   FAMÍLIA CRISTÃ

No que à exibição de imagens diz respeito, posiciono-me no cinzento. Não sou daquelas pessoas que acha que há imagens proibidas, porque na verdade há alturas em que elas são mais do que necessárias, nomeadamente quando o mundo parece andar a dormir ou a ignorar escandalosamente problemas que têm de ser resolvidos, a bem dos direitos humanos e da humanidade.

Mas isto não quer dizer que podemos fazer da violência o isco para as audiências subirem. E isto quer ainda menos dizer que podemos repetir, até à exaustão, não só nos diversos telejornais de diferentes horários, mas (completamente ridículo) no mesmo telejornal, imagens sem qualquer edição, ou com um nível de edição que nos faz parecer que ela não existiu. E não, a verdade não fica distorcida quando a edição a que me refiro é a que tem como objetivo respeitar a dignidade da pessoa.

O exemplo que mais me chocou nos últimos tempos foi a da morte do embaixador russo na Turquia. Eu sou jornalista e, acreditem, demorei alguns minutos a processar que os comentários que os senhores estavam a tecer em estúdio e as imagens que estavam a passar estavam total e completamente ligados, no tema e no tempo. Primeiro, porque se foi repetindo a reprodução do acontecimento (o senhor a entrar no museu, o som dos tiros e depois, o senhor estendido no chão) e depois porque se parava a imagem no embaixador russo estendido no chão (mas parava-se por longos segundos, de modo a que conseguíssemos ver bem a cor do fato, da camisa, o número dos sapatos, etc). E enquanto isto acontecia, os senhores comentadores falavam sobre todo o contexto (as motivações, os porquês, o que ia acontecer de seguida entre a Turquia e a Rússia), com aquele senhor na imagem, mas praticamente sem se referir a ele. Esta falta de sensibilidade foi o que me levou a estar alguns minutos sem perceber que aquilo que estava a ver era o “assunto” sobre o qual estavam a falar.

Uma pessoa, cuja vida se estava a esgotar, ocupou a tela da televisão (que isso choca e é bom para manter as pessoas presas ao ecrã), mas não ocupou na mesma proporção os discursos. A imagem sem vida daquele homem foi usada (a expressão é mesmo esta) e, da minha perspetiva, com muito pouco respeito e muito pouca sensibilidade. Senti-me constrangida enquanto espectadora, pela falta de importância que foi dada à perda de uma vida.

Mas há mais: as imagens dos vídeos de telemóvel em que jovens agridem um outro e utilizam expressões tão violentas quanto os seus atos, repetidas e repetidas. "Ah, mas isto é para chocar e fazer ver a violência dos jovens entre eles". Não, não é! Da forma como o fazem, não é. É só uma maneira de relativizar todas as outras formas de violência, consideradas menos graves. Porque, lá está, se na televisão passam jovens a pontapear outros na cabeça e a “gozarem” o prato com uma violência extrema, se eu só insultar o colega não é nada de especial. Se eu só o rebaixar constantemente não me aproximo nem pouco mais ou menos daquilo que é possível fazer para magoar alguém. Bem, ou então, posso sempre aprimorar a minha maldade até níveis “televisivos”, porque o que tenho feito é pouco e há sempre maneiras de me tornar pior e sentir-me o maior.

Os jornalistas têm o poder de ajudar a mudar o mundo, de dar voz a quem não tem voz, de denunciar as injustiças, etc. Têm o poder e a capacidade de chocar quando é preciso e de, para isso, recorrer a imagens que funcionem como “murros no estômago”, que nos façam ver que há coisas a passar-se que não são humanamente aceitáveis. Banalizar a violência não me parece a forma mais inteligente de se fazerem ouvir.
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