A letícia dentro da normalidade IV : A descendência

INÊS AVELAR SANTOS     REVISTAPASSOS.PT   11.01.17

O pai Pedro... À conversa com a Inês, num banco do jardim do Hospital de Santa Maria (HSM), pergunto-lhe como era o pai Pedro. Eu acho que é muito parecido com o Pedro do Povo. É engraçado que na primeira semana de luto a saudade não aperta muito porque ele era muito discreto; portanto, nas conversas familiares o que falta é a pessoa. O pai só respondia a coisas directas, e o que acrescentava era informação do estilo “hoje faz anos a prima...”, não entrava na nossa conversa banal. E depois, apesar de discreto, a presença notava-se mais nas coisas que fazia. Nunca deixava de fazer as coisas que lhe pedia, apesar de por vezes se chatear quando lhe pedisse. Fui ver as mensagens que troquei com o meu pai nos últimos tempos e eram sempre “posso ir apanhar os miúdos, dá-lhe jeito?”. Esta pergunta repetia-se diariamente. E realmente, se tivesse um bocadinho de tempo, esse bocadinho era oferecido, não ficava para ele. Portanto, apesar de discreto era um pilar”. Uma forma de estar que se manifestava também no blog. “Na colecção dos textos que publicava no blog não havia uma opinião imposta, mas os leitores percebiam onde o pai queria chegar.”

Com 13 anos na altura, Inês lembra-se bem das primeiras férias do CL a que foi com os pais e com a sua irmã Constança. “Em 1994, é a primeira vez que a minha mãe me diz com um ar um bocado gozão que iam fazer umas férias, tipo um “campo de férias para adultos”. Eu lembro-me de torcer o nariz e fomos às férias do movimento na Atouguia da Baleia.”
No fim dessas férias a saúde da Constança complica-se e vão directos para o hospital. Depois de um ano e meio de um processo clínico complicado e de ser sujeita a várias intervenções, volta para casa. Inês conta que “a partir dessa altura a vida dela começou a ser um bocado mais complicada. E éramos todos a tratar dela. A vida não mudou por aí além. Íamos almoçar às Amoreiras e no carrinho ia o jarro da comida dela com a bomba na parte de baixo do carrinho. Foi um período duro... Mas o meu pai e a minha mãe permaneciam iguais, não havia alterações. Nunca lhes vi alterações de humor, faziam o que era preciso fazer... A dificuldade não era o que sobressaía. Era assim mesmo. Não viam aquilo como um desafio, “a Constança está doente, portanto é preciso tratar dela!”.
Sendo a doença das irmãs uma doença genética, também Inês viria a descobrir a possibilidade de ter filhos doentes como as suas irmãs. Inês e Gonçalo, casados desde 2007, têm hoje 4 filhos. Em relação ao Pai, conta que sobre “a maneira como a gente resolveu viver a nossa vida foi uma agradável surpresa; nunca disse ‘que bom, fizeram bem’ ou ‘vocês são espetaculares’, nada disso. Ficou só surpreendido. Os os dois primeiros bebés nasceram saudáveis, não havia muita coisa a dizer, e nunca falámos sobre o que é que íamos ou não fazer... Os meus pais estavam simplesmente a assistir ao que ia acontecendo”. Pedro Maria, o terceiro filho, nasceu com a doença das tias. “O nascimento do Pedro foi mais duro nesse aspecto, mas lembro-me perfeitamente de o Gonçalo decidir baptizá-lo ainda no hospital 2 dias depois de ele nascer e o meu pai ter ficado comovido com isso porque ele próprio não se teria lembrado de uma coisa dessas. E disse. O meu pai até era mais expressivo naquilo que lhe faltava e não naquilo que tinha.”

O avô Pedro. “Com os netos, como qualquer homem, quando eram pequenos não ligava muito, mas depois começaram a falar, começou a ensinar-lhes coisas, a levá-los ao Porto, e achava-lhes imensa graça. Era uma relação muito recíproca, gostavam muito do avô “Pê”, que também lhes deixava jogar jogos no iPad – claramente não estava lá para educar, pelo menos da mesma forma que nós educamos nos tempos de televisão, computador, etc. Mas ao mesmo tempo era quem lhes dava banho e ajudava a vestir. E depois a minha mãe adoeceu e isso salientou-se ainda mais, o meu pai continuava a levar os netos a casa, mas quando tinha de fazer as coisas, fazer o jantar e preparar a logística, era o meu pai que me ajudava”.

Era um homem feliz... “Sim... claro. Era. Feliz, mas dorido, não nos podemos esquecer dessa parte”. Depois de Pedro Maria, veio ainda Leonor. “Lembro-me de contar aos meus pais que estava à espera de bebé, e o meu pai não sorriu. Claro que adorou vê-la nascer saudável, mas os pais têm dificuldade em ver os filhos darem passos que são, mesmo que certos na fé (acho que isso ele identificava), difíceis”.
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Não era uma felicidade alheada da dificuldade da vida. “O sorriso do meu pai é aquilo a que se chama letícia, porque não é um sorriso histérico, não é alheado do que se passa, é de tal maneira que ele até sofria com a realidade dos outros, era bastante caridoso nisso. Às vezes não com acção, mas via-se que ele ficava horas a matutar nas coisas e não tenho dúvidas que coisas que ele punha no blog tinham a ver com a realidade que ele via à volta. Havia imensa coisa que o pai fazia que se via que tinha a atenção virada para nós. Por um lado, rejubilava quando nos via a ser bons uns para os outros e ficava tristíssimo, mas silencioso sempre, quando nos via a maltratar-nos uns aos outros.
Disse-me a Inês que o Pedro Maria é o seu filho preferido. Também o Senhor continua a preferir a família do Pedro. Pela forma radical e ternurenta como o chamou a Si mostra-nos que continua a chamá-los a participar da Sua cruz com uma intimidade especial. Nos dias de sufrágio da sua alma, mais do que tristes, vimo-los a todos de olhos postos no sacrário. Com a morte do Pedro chega-nos novamente um convite, pela boca do próprio naquele que seria o seu último serão, “no fundo, a nossa verdadeira peregrinação é para o Céu”. 
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