quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Carta aos internistas

LUÍS CAMPOS    04.01.16    PÚBLICO

A situação atual vai piorar nas próximas semanas nos hospitais, e é sobre nós que este agravamento se vai abater. Não é só um problema de mais camas é também de ter quem cuide dos doentes internados nessas camas.


As palavras deste breve texto dirigem-se a todos os internistas, incluindo internos em formação, homens e mulheres, que se entregam abnegadamente a cuidar dos doentes nos hospitais e que, nesta altura do ano, têm que responder ao massivo aumento de admissões nas urgências e de internamentos, numa sobrecarga que testa os seus limites físicos e psíquicos.

Estas palavras dirigem-se aos internistas que nas urgências, com as mesmas equipas reduzidas de sempre, sofrem a angústia de ter dezenas de doentes à espera de serem observados, de ver acumular os doentes internados em macas, porque não há vagas nas enfermarias, de ser interno e ter de tomar decisões porque o assistente está ocupado na reanimação, internistas que continuam a trabalhar, apesar de estarem doentes, para a equipa não ficar desfalcada, estão escalados pelo terceiro Natal consecutivo, acorrem aos doentes que descompensam, têm que responder a múltiplas solicitações de informação das famílias preocupadas, desgastam-se em telefonemas para apressar exames ou à procura de uma vaga de cuidados intensivos, porque no hospital já não há, são chamados para dar a notícia da morte de um doente à família...
Esta carta dirige-se aos internistas que depois, na enfermaria, andam numa roda-viva porque é preciso dar altas, assistem os doentes espalhados por todo o hospital porque o serviço de Medicina está superlotado, são chamados aos serviços cirúrgicos para tratar as complicações médicas, perdem horas infindas a tentar arranjar soluções para os problemas sociais dos doentes, desesperam pelo tempo que demora a nomear um tutor para o doente que é incapaz e não tem família, levam para casa a inquietação do doente para o qual ainda não têm ainda diagnóstico, procuram aliviar o sofrimento dos doentes terminais e permitir-lhes uma morte digna, e ainda têm que ir para a consulta, ver doentes no hospital de dia, discutir a história clínica com um aluno, preparar a visita médica e prepararem-se para mais uma noite de urgência interna.
Milhares de horas a mais não remuneradas acumulam-se, as folgas a que têm direito não são tiradas, as horas extraordinárias continuam mal pagas, pelo que muitos são forçados e trabalhar fora do hospital. Ao contrário das especialidades cirúrgicas, em que há incentivos para efetuarem mais cirurgias, e dos médicos de família, que recebem incentivos pelo desempenho, este esforço adicional de cuidar dos doentes, para além da lotação do serviço, não tem nenhuma compensação. A vida pessoal e familiar fica de pantanas. O burn-out é endémico.
Na verdade, a Medicina Interna é a especialidade com maior número de médicos nos hospitais do SNS, mas a necessidade de internistas tem crescido mais do que o número de internistas formados. Os doentes, cada vez mais idosos e com múltiplas patologias, precisam cada vez mais da Medicina Interna, nas urgências, nos serviços de Medicina, mas também nos serviços cirúrgicos. Nós, internistas, gostávamos de iniciar projetos que tentassem reduzir as admissões nas urgências e evitar internamentos, como implementar unidades de diagnóstico rápido, programas de hospitalização domiciliária, programas de cuidados integrados com os cuidados primários, mas para isso temos que ser em muito maior número.

Obrigado aos internistas portugueses, pela vossa competência e pela vossa dedicação exemplar, que evita que os hospitais entrem em rutura e os doentes sofram ainda mais. A situação atual vai piorar nas próximas semanas nos hospitais, e é sobre nós que este agravamento se vai abater. Não é só um problema de mais camas é também de ter quem cuide dos doentes internados nessas camas.

Que o ano de 2017 traga mais reconhecimento, mais dignidade e sobretudo melhor compensação a esta forma que escolhemos de sermos médicos de doentes que têm doenças e não médicos de doenças, como dizia William Osler.
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