Daniel Serrão personifica a simbiose exemplar entre Ciência e Fé

ISABEL GARIÇA NETO     10.01.17     RR
O legado do Professor honra-nos e responsabiliza-nos. Ele não temia a morte, falava dela com serenidade e valorizava-a.
A morte é um momento que faz parte da vida, um momento de síntese e de revisão de vida. Mais do que rever a brilhante carreira do Professor Daniel Serrão, a sua ligação singular e impulsionadora à Bioética e às Ciências da Vida, na sua morte acredito que o que ele gostaria que fizéssemos seria precisamente celebrar a sua vida. E celebrar a vida é, como ele próprio dizia, lembrar que o seu foi um universo único e irrepetível, lembrar os seus talentos e virtudes e, sobretudo, agradecer o exemplo e o legado que nos deixou.
Ele não temia a morte, falava dela com serenidade e valorizava-a, sobretudo porque entendia que isso ajudava a dar sentido à vida e porque gostava de a viver. O seu enfoque foi sempre mais na vida do que na morte, e sendo ele médico patologista, isso é de destacar.
Privámos em várias ocasiões, debatemos juntos, discutimos perspectivas e pontos de vista, frequentemente. Estou grata, a ele e á vida, por esse património, por esse privilégio.
Adorava um bom debate, adorava, sendo professor, partilhar ensinamentos e continuar a aprender com os mais novos. Tocou-me sempre a forma corajosa e enérgica como afirmou reiteradamente princípios e valores, sem tibiezas, por vezes contra a corrente dominante. Tocou-me a forma empenhada como, apesar da idade, não reformou as suas convicções nem se retirou dos palcos de estudo e de discussão. Como afirmou a fé que professava, como viveu a direito, sem com isso desrespeitar as opiniões dos outros e sem ser arrogante. A isso creio que se chama coragem, heroicidade, generosidade, humildade e grandeza de alma, traços de caracter que não banalizamos, ainda que estejamos, no secularismo de hoje, mais habituados a associá-los a diferentes circunstâncias de vida.
Ele personificou, para mim, uma simbiose exemplar entre Ciência e Fé, aquilo que numa sociedade laica como a nossa é frequentemente mal-entendido e olhado com preconceito de menoridade. O seu legado honra-nos e responsabiliza-nos a continuar a ampliar o seu percurso, da melhor forma que soubermos fazê-lo.
Deixa-nos uma enorme saudade, mas uma saudade doce, que só pode trazer para o nosso dia-a-dia a responsabilidade de continuar a Defesa da Vida, da Dignidade humana e do serviço ao Outro.
Homenageá-lo, como é devido, será também, à luz da Fé que sempre professou, celebrar a sua chegada ao colo do Pai misericordioso, que espera aqueles que em vida não O renegaram. Imagino que ele esteja muito feliz.
Curvo-me perante a sua memória. Que Deus o guarde e que ele nos acompanhe. E isso basta.
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