Sofrer por motivos errados

OBSERVADOR 26/9/2014
Miguel Tamen
Existe um erro de raciocínio que consiste em concluir que, como a tortura é detestável, as opiniões das pessoas que foram torturadas são nobres.

Sofre-se por muitos motivos: lumbago, escrúpulos, causas. Quase ninguém é de opinião que o sofrimento seja agradável. E a maior parte das pessoas acha que evitar sofrimentos, sobretudo próprios, é um objectivo razoável. Mas será que uma pessoa que sofre é necessariamente uma boa pessoa? E será que uma causa ou uma ideia por que uma pessoa sofreu se torna boa apenas pelo facto de alguém ter sofrido por isso? A noção não ocorreria a propósito de lumbago. O lumbago não pode ser um motivo errado.
Estas perguntas vêm de ouvir de vez em quando um programa ao fim de semana em que se entrevistam pessoas que foram torturadas em prisões políticas portuguesas. A tortura é um processo detestável. Não devia existir e não devia ter existido. Um regime em que não se torturam pessoas é sempre melhor que um regime em que se torturam pessoas. De igual forma, o sofrimento das pessoas que foram torturadas é genuíno e deveu-se a motivos injustificados.
No entanto, pelo facto de uma pessoa ter sido torturada as suas opiniões não passam a ser verdadeiras. Pessoas com opiniões nobres e opiniões detestáveis são indiferentemente torturadas por quem as tortura. A nobreza ou o carácter detestável de uma convicção não resulta do somatório dos horrores por que os seus adeptos passaram: o sofrimento não pode ser convertido em mérito intelectual. Por essa razão, a nobreza ou o carácter detestável de uma pessoa torturada não podem ser desligados da natureza das suas convicções.
A maior parte das pessoas ouvidas no programa foram e acredito que ainda sejam militantes comunistas. O facto de terem sofrido é porém irrelevante para os méritos do comunismo. Se fossem nazis ou democratas-cristãos o seu sofrimento também não alteraria em nada a qualidade das suas convicções. A qualidade das convicções políticas mede-se por aquilo que acontece àqueles que não as partilham. O teste de uma doutrina política não é nem pode ser a qualidade ou a quantidade de sofrimento que causou aos seus adeptos; embora uma característica de certas doutrinas políticas seja o sofrimento que inflingem aos seus próprios adeptos.
Existe um erro de raciocínio que consiste em concluir que, como a tortura é detestável, as opiniões das pessoas que foram torturadas são nobres. É este erro que leva muita gente a sentir-se tentada a respeitar por atacado as ideias de todas as pessoas que foram torturadas, excepto possivelmente as dos nazis. Acontece que a maior parte das pessoas que ouvi naquele programa têm ideias confusas, cruéis e primitivas. Devemos ser capazes de distinguir os horrores que lhes aconteceram das enormidades que eles dizem. A nossa compaixão deve antes ser reservada para quem foi torturado porque tinha ideias boas, mas muito em especial para quem foi torturado porque não tinha quaisquer ideias.

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