Barbárie e civilização

JOAO CÉSAR DAS NEVES
DN 2014.09.15

A Rússia anexou a Crimeia, na primeira violação de fronteiras da Europa desde 1945, começando o que ameaça ser um terrível conflito. No Iraque e Síria, sempre tão turbulentos, surge agora o Estado Islâmico (IS), com terríveis massacres e proclamando a 29 de Junho um califado mundial. Que já tem concorrência, pois o sangrento Boko Haram da Nigéria declarou outro califado global a 24 de Agosto. Como podem coisas destas acontecer hoje?
A pergunta, muito comum, esconde enorme ingenuidade. Porque razão havia de hoje ser melhor que ontem ou antigamente? Que temos nós de especial que nos torna imunes ao vandalismo? Coisas destas sempre aconteceram e vão acontecer. Como sempre teremos patetas que se surpreendam com elas.
Exaltar a civilização e contrapô-la à barbárie é razoável, hoje como antigamente. Mas se uma das culturas mais avançadas e sofisticadas da história, como a Alemanha dos anos 1930, cai na selvajaria nazi, das mais abjectas de sempre, isso devia vacinar-nos contra a tolice de nos dizermos imunes à bestialidade.
Vladimir Putin é um político irresponsável e violento, coisa comum em todos os países do mundo. Putins há muitos. Mais assustador do que as suas infâmias é que elas lhe concedam enorme popularidade nacional. Há menos de um ano o apoio nas sondagens do presidente russo era miserável, atingindo níveis invejáveis precisamente após esta violação do direito internacional e da decência humana. Mas os russos não são monstros, selvagens ou lunáticos. São pessoas como nós, humanas como nós, vendo o outro lado do problema.
Não é preciso ser monstro, selvagem ou lunático para pactuar com ideais, propostas e acções inaceitáveis. Por exemplo, pacatas donas de casa portuguesas têm dito coisas incendiárias acerca da troika ou do Governo. Se a crise em Portugal continuar mais uns anos, não só os lusitanos apoiarão as loucuras de um qualquer Putin que apareça, mas vemos já vários candidatos ao lugar.
Nesta triste história a única coisa aberrante, embora compreensível, é que os países ocidentais estivessem prestes a desmantelar a NATO, considerada obsoleta. A virtude deste terrível acto de Putin foi mostrar a tolice, ainda a tempo de correcção.
O califado é ainda menos estranho do que a invasão da Crimeia. Basta olhar para o caos do Médio Oriente e Norte de África dois anos após a romântica Primavera Árabe para o compreender. A imprensa ocidental tem pintado o IS como uma força terrorista primitiva. De facto, as atrocidades são inqualificáveis, mas essa descrição mostra enormes deficiências. Se consideramos o fenómeno das dezenas de milhares de jovens europeus que têm acorrido à região para se alistarem nessas forças, entende-se como as coisas são muito mais complexas. Essas pessoas não são monstros, selvagens ou lunáticos. São exactamente como nós ou os nossos filhos. Usam o Facebook, dizem piadas, gostam de comida de plástico, e anseiam pela ordem e a paz interior que o islão lhes promete. Como nós gostamos de ter ordem e paz interior.
As pessoas que consideram esses acontecimentos surpreendentes esquecem as terríveis críticas que elas mesmas têm feito à sua própria sociedade noutras circunstâncias. Muitos dos que dizem que a Europa está perdida, que os nossos líderes são trogloditas e o sistema vai derrocar, logo a seguir afirmam não entenderem como podem os russos ou iraquianos odiarem tanto o Ocidente. Esses povos, afinal, limitam-se a levar a sério aquilo que nós mesmos dizemos sobre nós.
Os horrores da Ucrânia, Iraque e Síria, como Egipto, Líbia, Nigéria e tantos outros, deviam, não levar-nos a classificar russos ou árabes, mas a pensar em nós. Assim vemos como somos muito piores e muito melhores do que achamos. A Europa, tendo abandonado a religião, desmantelado a família, comercializado a cultura e corrompido as instituições, não se pode surpreender que os outros povos a desprezem e seduzam os seus jovens. Mas, apesar das crises, livre de ditadores e fanáticos, massacres e caos, a Europa permanece um dos melhores cantinhos do planeta.

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