A independência da Escócia em referendo


José Maria C. S. André
Correio dos Açores 2014.09.18

Passei as últimas semanas em Glasgow, a maior cidade da Escócia, e tive oportunidade de assistir, ao vivo, à campanha mais intensa da história desse país, em preparação do próximo referendo. Os políticos parecem exaustos e, à medida que o tempo passa, a população envolve-se cada vez mais na disputa. O futuro da Escócia e do Reino Unido está pendurado de um «yes» ou de um «no» que, segundo os responsáveis, nunca mais se repetirá. Há uns meses, as sondagens indicavam que a maioria rejeitava largamente a independência, mas a margem tem vindo a estreitar. Neste momento, em que tudo é possível, os cidadãos perderam a fleuma britânica e dão tudo-por-tudo para convencer o vizinho. Os políticos, imagina-se.
A televisão transmitiu vários debates, dois entre Alex Salmond, actual Primeiro-Ministro escocês, pelo «yes» à independência, e Alistair Darling, político trabalhista, líder do «better together». No final do primeiro debate, a opinião generalizada, em todos os quadrantes, é que Alex Salmond esteve mal. No segundo debate, há quem diga que venceu. Pelo menos, recebeu mais palmas da assistência que enchia o hall do Kelvingrove Museum e parece ter beneficiado nas sondagens. Assisti à transmissão, mas não seria capaz de dizer quem foi mais eficaz.
Alex Salmond gerava empatia, saía do púlpito, com um microfone de lapela, e falava junto às primeiras filas do auditório, gesticulando. Prometeu tudo. Mais emprego, mais saúde, mais escolas, mais segurança e uma Escócia cada vez mais rica.
Alistair Darling manteve-se atrás do púlpito e não prometeu nada. É considerado um economista competente e, de facto, percebia-se que dominava melhor as contas. As suas dúvidas de que o Governo escocês conseguisse arranjar dinheiro para cumprir as promessas, obrigavam a pensar.
Como português, assisti espantado a todo o debate. O mundo britânico constitui um planeta à parte. O único tema de que se falou, sem nenhum instante de distracção, foi a economia. Como gerir a moeda? Quais os riscos cambiais? Como financiar os gastos públicos? Como precaver-se contra eventuais perdas de rendimento económico? Estes temas, e apenas estes, foram discutidos com um pormenor que poucos eleitores portugueses seriam capazes de acompanhar. Na minha opinião, Alex Salmond tratou os assuntos num registo mais demagógico, Alistair Darling foi mais rigoroso e menos empolgante, mas nenhuma pergunta do público, do jornalista, ou dos próprios, se afastou daquele tema único.
Na sondagem que a BBC fez a seguir ao debate, apenas um, entre numerosos comentadores convidados, se queixou de não se terem abordado outras questões. E noutros debates, de menor importância, também só se tratou de dinheiro. Suponho que em Portugal teríamos falado da cultura, da vida social em sentido amplo e talvez nos faltasse tempo para mencionar tão a fundo o impacto económico. Reconheço que me senti estrangeiro num planeta que só fala de economia, ao mesmo tempo que senti uma certa inveja desta sensibilidade para a minúcia da política financeira, sem a qual a cultura não se distingue da demagogia. Quem me dera os dois mundos!
Conversando com outros britânicos (isto é, britânicos não escoceses), apercebi-me de que esta campanha foi longe demais. A defesa acalorada da independência da Escócia foi tão agressiva nalguns momentos, que deixou os ingleses magoados. Por outro lado, a campanha mantém-se, com grande intensidade, há muitos meses, de modo que todo o Reino Unido começa a estar cansado e aborrecido. Há um propósito de que este referendo nunca mais se repita, qualquer que seja o resultado, no entanto, aventuro-me a um prognóstico: se a questão voltar a pôr-se, suspeito que da próxima vez os ingleses também pedem um referendo, para se verem livres dos escoceses.

José Maria C. S. André

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