Aristocratas do socialismo

Maria João Marques | Observador |  2014.09.10
Há umas semanas correu nos jornais e redes sociais um estudo que notava que as pessoas bonitas ganhavam mais do que as menos agradáveis à vista. Conclui-se agora que ser de esquerda tem o mesmo efeito
A semana passada foi uma grande semana para o país. Ficámos a saber que podemos ganhar dezenas de milhar de euros anualmente sem fazer absolutamente nada. Não tema o leitor: não venho aqui vender nenhum esquema fraudulento daqueles que nos propõem rendimentos estratosféricos trabalhando duas horas a partir de casa. Nem se trata de aconselhar a dar o golpe do baú, que nesses casos pode mesmo ser muito trabalhoso contentar o dono ou a dona do baú. Não, refiro-me ao emprego dos administradores não executivos dos bancos nacionais, que Godinho de Matos tão bem descreveu na entrevista que deu ao jornal i. Como administrador não executivo do BES, entrava mudo, saía calado, não fazia ideia do que se passava no banco, não fazia perguntas (até se podia fazer, mas nunca ninguém fez e já se sabe que não é de bom tom quebrar tradições). E, por essa hercúlea tarefa, foram-lhe pagos em 2013 42.000€.
E quais são as condições de recrutamento para tão relaxante e rentável profissão? Um doutoramento? Um pós-doutoramento? Experiência em cargos de topo em organizações internacionais? Não complique, caro leitor. Para ser selecionado para administrador não executivo de uma grande empresa portuguesa – daquelas, bem entendido, que aumentam a faturação quando empregam quem tenha o ouvido dos decisores políticos – basta: a) ser de esquerda; e b) estar ligado à resistência ao regime de antes de 74.
Poderia argumentar que isto é – tal como a atual Segurança Social – uma discriminação das gerações mais novas (por exemplo eu, que nasci em 1974, não posso apresentar no meu CV a entrada 'resistência anti-fascista'), mas prefiro centrar-me nas vantagens sociais e económicas que, pelos vistos, ser de esquerda dá. Há umas semanas andou a correr nos jornais e redes sociais um estudo que notava que as pessoas bonitas ganhavam mais do que as menos agradáveis à vista. Conclui-se agora que ser de esquerda tem o mesmo efeito.
Enquanto lia a entrevista de Godinho de Matos, lembrei-me de Deborah Mitford, a penúltima Duquesa do Devonshire. Há uns anos, dois ou três, li o seu livro de memórias. Na verdade li só partes, porque esperava encontrar textos deliciosos como os produzidos nas memórias das suas irmãs Jessica (a comunista) e Diana (a amiga de Hitler), mas o talento literário (que culminou, evidentemente, em Nancy) foi desigualmente distribuído na família. Em todo o caso li que a Duquesa foi convidada para (e aceitou) fazer parte da administração de uma grande empresa. Méritos profissionais da senhora? Era mulher (e começava a parecer bem não ter empresas fastidiosamente só masculinas) e era duquesa (donde: sabia estar e conhecia imensa gente of consequence). Se calhar – digo eu – não perceber nada do negócio que ajudava a administrar até era uma mais-valia, não fosse sentir-se à vontade para se fazer saliente e colocar entraves à gestão de quem sabia.
Curioso, não é, que a ideologia igualitarista do socialismo acabe a reproduzir para os seus aficionados os benefícios que costumam estar à disposição da aristocracia de sangue nos países onde esta ainda persiste? Não, em boa verdade não é curioso, é mesmo algo intrínseco ao socialismo e que os socialistas se esforçam por manter, que a vontade de cuidar de si e dos seus não está licenciada apenas para uso da direita.
Temos os exemplos das ditaduras do proletariado – perdão, democracias populares – onde se instala uma monarquia inconstitucional: na Coreia do Norte vamos na terceira geração de boa governação da família Kim, e em Cuba Raúl sucedeu ao irmão Fidel.
Estes pormenores classistas sempre me divertiram em ideologias que pregam a igualdade acima de tudo. Depois da desagregação do URSS, andei viciada nas reportagens da Revista do Expresso onde se contavam os apartamentos espaçosos e luxuosos dos dirigentes de topo do PCUS, mais as dachas de fim de semana. Na China maoísta, as classes de origem de qualquer chinês estavam registadas e determinavam, por exemplo, quem podia frequentar a universidade. A população vivia em generalizada pobreza, mas os altos quadros do PCC viviam em casas amplas, com empregados domésticos e carros modernos. Atualmente os filhos e netos dos tais altos quadros do tempo maoísta (incluindo a neta de Mao) são os felizes possuidores de gigantescas fortunas construídas com base nas influências políticas das famílias.
O socialismo não é o comunismo, dir-me-ão. Não é. Mas está sujeito à mesma tentação: vê o partido como O Bem e recompensa segundo a proximidade ao topo. A partir daí as dinastias aristocráticas proliferam, ao mesmo tempo de sangue e políticas. E quanto à igualdade, usam aquela boa máxima inventada por George Orwell no Animal Farm: 'Todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais que outros.'

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