A escola em minha casa

Inês Teotónio Pereira
ionline 2014.09.20
Sou contra os TPC por princípio. Sou contra o peso da escola na vida das famílias

No início de cada ano lectivo, as conversas e discussões sobre os trabalhos de casa enviados pela escola é recorrente. Não tanto quanto as peripécias na colocação de professores, mas para lá caminha. Este assunto é normalmente restrito a pais e psicólogos de um lado e a professores do outro. Não sendo matéria legislável, o interesse do público acaba por ser residual. No entanto, só esta semana já existem manifestos, crónicas de opinião, debates em blogues e muitos comentários sobre as virtudes e os efeitos nefastos dos trabalhos de casa. Os pais agitam-se, os professores reagem e os psicólogos manifestam-se contra a falta de sono das crianças e a falta de tempo para serem crianças.
Pois a minha opinião sobre o tema é simples: sou contra os TPC por princípio. Sou contra o peso da escola na vida das famílias e sou contra todas as regras pedagógicas que são cegas às particularidades de cada criança. As crianças passam pelo menos oito horas na escola. Ali é-lhes exigido tudo: que aprendam, que cresçam social e emocionalmente, que desenvolvam hábitos de trabalho, de organização e que sejam responsáveis. Os nossos filhos vivem grande parte das suas vidas dentro de uma escola e são entregues a profissionais que têm como função ensinar-lhes tudo isto. Cada avaliação trimestral afere tudo isto e todas as competências que adquirem ao longo dos anos reflectem também tudo isto. A escola é hoje quase tudo na vida dos nossos filhos e a todos os níveis. A família apanha o que sobra. O que sobra de tempo, de disposição, de amizades e até de formação. Na maioria dos casos, esta realidade não é uma opção: o dia-a-dia, as rotinas, o trabalho, os transportes, o trânsito e a organização das nossas vidas a isso obrigam. Todos os dias resta-nos pouco tempo sem obrigações e os nossos filhos também apanham o que sobra.
É claro que os pais não devem nem podem estar alheados da vida escolar dos filhos. Mas há uma fronteira e cada macaco no seu galho. A nós cabe educar a criançada, o que não é pouco. Transmitir-lhes o que consideramos serem as prioridades da vida, ajudá-los a serem responsáveis, a terem a auto-estima a níveis razoáveis, a formar o carácter e, acima de tudo, ajudá-los a serem felizes. Sempre ligados à escola e sempre com a escola ligada às nossas vidas. Mas da mesma forma que eu não tenho qualquer autoridade na elaboração de um exame, na escolha das disciplinas que são leccionadas aos meus filhos, na forma e no ritmo com que o professor dá as aulas, também a escola não deve invadir o nosso final de dia e apropriar-se de um tempo que não é seu por direito.
Os trabalhos de casa são uma espécie de tempo roubado aos pais, às famílias e às crianças. Mesmo aquela meia hora (nunca cumprida) pedagogicamente aconselhável para ser gasta com TPC, é menos meia hora para nós os termos como filhos e não como alunos, e para eles gastarem como crianças e não como estudantes.
Sim, há matérias que precisam de ser lidas com mais atenção, exercícios que é preciso praticar e outras tarefas que são aconselháveis fora das aulas. Há crianças que precisam de trabalho extra para melhorem o desempenho, para apanharem o comboio ou para perceberem que é nas aulas e com os professores que se aprende. Mas tudo isto deve ser excepção. Em casa a autoridade é dos pais e só a eles compete decidir - ouvindo ou não o conselho dos professores - como é que os filhos devem ocupar o seu tempo sem que por isso sejam prejudicados na escola.
Não, não concordo com os TPC e ainda não encontrei uma justificação pedagógica que me fizesse mudar de opinião. Excepcionalmente, claro que sim, porque cada caso é um caso; como regra, acho que é uma espécie de tratamento invasivo e fútil. Agora vou ali ajudar os meus filhos a acabar alguns TPC porque está na hora de ir jantar e fazer figas para que os professores deles não nos castiguem com mais TPC por causa desta crónica.

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