Valladolid: a voz de Las Casas

VIRIATO SOROMENHO-MARQUES DN 2014.08.10

Valladolid foi, até à mudança da capital para Madrid (1606), uma cidade politicamente decisiva numa Espanha que juntou a unificação da Península Ibérica com a construção de um império mundial. O visitante que caminhe da Plaza Mayor para o Colegio de San Gregorio, que é hoje sede do Museu Nacional de Escultura, realiza também uma viagem no tempo. Contudo, nesse belíssimo edifício o que se celebra é um acontecimento raro e hoje esquecido. A capacidade de um império se colocar a si próprio em causa. Na verdade, foi nesse edifício que se realizou a famosa Controvérsia de Valladolid (ou Junta de Valladolid) em duas sessões, respetivamente, no verão de 1550 e na primavera de 1551. O imperador Carlos V e o seu filho, o futuro Filipe II, decidem promover uma discussão entre as maiores inteligências de Espanha, em que o que está em causa é a própria legitimidade do seu império ultramarino. O imperador era sensível, desde jovem, aos argumentos de Frei Bartolomeu de Las Casas (1484-1566), um incansável dominicano que viajara com Colombo, um homem tão corajoso fisicamente como brilhante na palavra escrita e dita. Las Casas atravessou 28 vezes o Atlântico para defender os "índios" do extermínio! Na controvérsia contra o partido imperialista liderado por Ginés de Sepúlveda, os argumentos de Las Casas surgem com uma clareza cristalina. Nem mácula de racismo ou paternalismo. Os "homens novos" da América são iguais aos "homens velhos" da Europa. Têm direito à sua cultura, às suas terras, ao seu poder próprio. Só o livre consentimento pode levar os homens a aceitar um novo soberano, ou a converter-se a uma nova religião. Tudo o resto é brutalidade ilegítima e imoral. A voz de Las Casas continua a vibrar. O nosso futuro precisa dela. Mais do que nunca.

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