Macroscópio 2014.08.11

 José Manuel Fernandes, Publisher, 2014.08.11

Boa noite!
 
Viu a Super Lua deste domingo? Se não viu, pode ver aquialgumas fotos tiradas pelos leitores do Observador e outras vindas dos quatro cantos do mundo. Se não viu, esta noite a Lua ainda está quase cheia e ao longo desta semana há outros motivos para olhar para o céu: está na altura das perseidas, a chuva de estrelas tão característica de Agosto.

Mas deixemos esta pequena introdução mais estival – afinal nem todos estão de férias – e regressemos a um tema que nos tem preocupado e ocupado: o Grande Médio Oriente.

O primeiro ponto de paragem é a Turquia, que teve eleições este domingo para Presidente da República. Ganhou, como se esperava, Recep Tayyip Erdogan. E logo à primeira volta. Os sinais de que o regime se está a tornar menos democrático e menos amigo do Ocidente são cada vez mais inquietantes.

Jorge Almeida Fernandes explica bem o significado para a Turquia de eleger pela primeira vez, de forma directa, o seu Presidente da República e interroga-se sobre se não estaremos a assistir a uma mudança de regime:
O problema não é o presidencialismo, um regime normal em democracia. É o risco de anulação do sistema de checks and balances, ou seja da separação dos poderes. Na Turquia, os mecanismos de controlo e limitação do poder político estão em patente erosão desde há três ou quatro anos.

Erdogan é realmente uma figura política como não há muitas, e isso vem bem explicado neste artigo do Washington Post. Nele se relata, por exemplo, como o líder político de 60 anos é capaz de marcar três golos de rajada numa partida de futebol e o guarda-redes adversário ainda ficar agradecido…

análise do El Pais - El sultán de los 100 años – vai mais longe. Para o diário espanhol, Erdogan quer continuar no poder em 2013, altura em que se comemora o centenário do regime fundado por Ataturk:
Erdogan va camino de convertirse en un líder de dimensión histórica tras haber transformado la economía de Turquía hasta colocarla entre los 15 países con mayor peso económico del planeta. Y ahí radica una de las principales razones de su victoria, impulsada por unas clases medias conservadoras y religiosas que han triplicado en el último decenio su nivel de renta, y que no parecen muy preocupadas por la reciente deriva autoritaria del líder islamista turco.

Mas as nossas maiores preocupação não vêm da Turquia. Porventura nem sequer de Israel ou de Gaza, onde hoje foi um dia de tréguas e de reinício das negociações do Cairo. O tema dos últimos dias é a situação no Iraque, a ofensiva do Estado Islâmico, a perseguição a todos os que não pertençam à sua muita especial variante do sunismo. Continuo por isso a seleccionar alguns textos que nos ajudam a enquadrar a situação e a compreender melhor o que se passa.

Começo por uma reportagem, do Telegraph: 'It is death valley. Up to 70 per cent of them are dead'. Reproduzo apenas o primeiro parágrafo:
Mount Sinjar stinks of death. The few Yazidis who have managed to escape its clutches can tell you why. "Dogs were eating the bodies of the dead," said Haji Khedev Haydev, 65, who ran through the lines of Islamic State jihadists surrounding it.
Esta leitura pode ser complementada pela de outra reportagem do mesmo Telegraph: Mount Sinjar: Iraq's mountain of death.

Continuo com uma história exemplar, a de uma menina muçulmana, de 14 anos, que vivia em Ceuta e um dia deixou aos seus pais apenas a seguinte mensagem:
Papá...Mamá... Me voy. Me voy al paraíso
Sim, 14 anos. Sim, espanhola. Sim, ia a caminho da jihad.
¿Cómo una niña española de 14 años decide ir a pelear la yihad convencida de que va al paraíso?
A pergunta é do El Mundo, a reportagem também. Conta uma história como tantas outras, a de jovens que saiem de países como Espanha, França, Reino Unido, Alemanha, Holanda, Bélgica, Itália, sem outro destino ou outra ambição senão a de juntar-se aos "soldados de deus" do ISIS ou da Al Qaed.

Uma outra história é a Kokito, um marroquino que vivia não longe da menina de Ceuta, em Castillejos, uma localidade junto à fronteira com a praia de El Tarajal. António Araújo conta a sua história – e mostra algumas das suas horripilantes fotografias – no blogue Malomil. Aí ficamos a saber que foi até à Síria, para onde chamou a sua noiva e aí lhe ofereceu um cinto com explosivos. Costuma fazer-se fotografar rodeado de cabeças decapitadas. A história original veio no El Pais, a quem um especialista em terrorimo descreveu a forma habituação de ação destes grupos:
Entram nas aldeias e arrasam-nas. Não há contemplações para com os inimigos. As cabeças degoladas são uma mensagem para que as pessoas vejam o que lhes pode acontecer se não aderirem ou obedecerem. 

Mas o horror não acaba aqui. Desta vez escolho o ABC: Un yihadista australiano del Estado Islámico fotografía a su hijo con la cabeza decapitada de un soldado sirio. O fanático chama-se Jaled Sharruf e na Austrália as imagens estão a ser condenadas como "bárbaras". Duvido porém que ele se incomode. Tal como não se deve incomodar por o governo australiano ter emitido um mandato de captura: ele e a sua família continuam na Síria. Sob a proteção do novo "califado".

O novo "califado". Exato. O que um dia se deveria estender a todas as terras que já foram muçulmanas, de Lisboa ao Afeganistão, do norte de Moçambique às portas de Viena. Duvidam? Vejam o mapa que anda a ser difundido nas redes sociais:



Neste momento o Presidente dos Estados Unidos já ordenou operações militares no norte do Iraque, operações que se destinam a aliviar a pressão sobre as populações em fuga. A sua actuação em todo o Grande Médio Oriente está contudo no centro de enorme controvérsia nos Estados Unidos, e este fim-de-semana foi Hillary Clinton que se veio juntar ao coro dos críticos, afastando-se de Obama na política externa e sendo muito dura na avaliação da estratégia na Síria. Vem tudo numa longa entrevista que deu à The Atlantic, uma entrevista que o Observador resumiu mas que também pode ler aqui a versão integral. O argumento da mulher que parece preparar-se para mais uma corrida presidencial é simples:
I know that the failure to help build up a credible fighting force of the people who were the originators of the protests against Assad—there were Islamists, there were secularists, there was everything in the middle—the failure to do that left a big vacuum, which the jihadists have now filled. They were often armed in an indiscriminate way by other forces and we had no skin in the game that really enabled us to prevent this indiscriminate arming.

Por hoje é tudo. Deixo-vos com as perseidas. Boas leituras – e boas estrelas cadentes.

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