Carta aberta a Marinho e Pinto

Alberto Gonçalves
DN 2014.08.17
Verifico com desgosto que, embora se lamente imenso os portugueses que emigram, celebra-se pouquíssimo os emigrantes que regressam a Portugal, aliás em grande número segundo recente estudo do ISEG. Veja-se o exemplo de V. Exa. Numa semana, ruma a Bruxelas decidido a pôr o dedo na ferida, colocar os pontos nos "ii" e todas aquelas modalidades de franqueza que o celebrizaram. Na semana seguinte, ou quase, anuncia o retorno a casa, pronto a candidatar-se à Assembleia da República, à presidência da República e ao que a República lhe providenciar. E isto porque, com a perspicácia que o caracteriza, V. Exa. descobriu que "o elemento agregador da Europa não está nos ideais nem nas políticas, mas no dinheiro".
Lamento informar V. Exa. que tal facto não é exactamente novidade. E que em vez de gastar o seu precioso tempo na campanha para as "europeias" e a procurar um grupo parlamentar que o aceitasse, V. Exa. podia ter perguntado a alguém: "Ouve lá, achas que o elemento agregador da Europa está nos ideais e nas políticas?" A resposta óbvia teria poupado V. Exa. a incontáveis maçadas.
Antes que V. Exa. se envolva em maçadas adicionais, aproveito para esclarecê-lo que o elemento agregador de Portugal também não está nos ideais ou nas políticas. Fatalmente, está também no dinheiro. Por isso, não vale a pena V. Exa. concorrer ao Parlamento indígena, a Belém ou à junta de freguesia da sua terra natal. Para usar uma expressão a que V. Exa. recorre com insuperável acerto, aquilo é tudo uma fantochada. E, escusado dizer, uma fantochada indigna de si.
Mesmo nos programas televisivos onde a voz de V. Exa. era a voz dos injustiçados e dos ramos da Justiça amigos do eng. Sócrates, a importância do dinheiro supera a do resto. Até os injustiçados e o eng. Sócrates, esses ingratos, apreciam dinheiro. A humanidade é assim pérfida e vendida. Se V. Exa. deseja manter-se fiel à sua verdade, afinal a única, sugiro-lhe que, volte ou não volte à pátria, não volte ao convívio dos homens. Ocupe uma cabana remota nas montanhas e dedique-se em silêncio às reflexões filosóficas que o consomem. Se ouvir turistas, esconda-se em silêncio. Principalmente em V. Exa., o silêncio é fundamental. Apenas Deus sabe o quanto o País precisa de V. Exa.: os portugueses não fazem ideia.

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