Redescobrindo o Ocidente

JOÃO CARLOS ESPADA  Público, 11/08/2014
Stark afirma que "a modernidade é inteiramente o produto da civilização ocidental."
Depois das sugestões de livros para férias, inicio hoje, previsivelmente até 1 de Setembro, uma série dedicada a leituras em férias.
How the West Won: The Neglected Story of the Triumph of Modernity, de Rodney Stark, (ISI Books, 2014) é o ponto de partida destas leituras estivais. Apesar do título vagamente belicoso, o livro não é sobre a superioridade militar do Ocidente. É sobre a complexa mistura de valores, práticas e instituições que, ao longo dos séculos, distinguiram o Ocidente do resto (The West and the Rest, no título provocatório de um livro de Roger Scruton sobre o mesmo tema).
Há uns quarenta anos, recorda Stark, uma das disciplinas mais importantes nas licenciaturas das melhores universidades americanas chamava-se Western Civilization. Aí se estudavam os grandes livros e as grandes obras de arte da cultura ocidental. Mas as modas "politicamente correctas" ostracizaram essa área de estudo. Diz-se agora que a civilização ocidental é apenas uma entre muitas civilizações e que estudar a nossa seria "etnocêntrico e arrogante."
Isto tem gerado uma ignorância patética sobre o passado. E, com ela, têm crescido as mais divertidas e absurdas teses politicamente correctas. Stark recorda algumas delas: que os gregos copiaram a sua cultura do Egipto; que a ciência europeia teve origem no Islão; que a riqueza ocidental foi roubada às sociedades não ocidentais; que a modernidade ocidental foi realmente criada na China.
Stark não nega que o Ocidente tenha sabiamente adoptado elementos de outras civilizações. Mas afirma, e procura ilustrar ao longo de mais de 400 páginas, que "a modernidade é inteiramente o produto da civilização ocidental." De caminho, Stark procura refutar muitos outros preconceitos actualmente dominantes na nossa cultura política.
"A Idade das Trevas", nunca existiu, argumenta o autor, em defesa do cristianismo medieval. Foi na verdade uma era de notável progresso e inovação, que incluiu a emergência do capitalismo. Também a chamada "revolução científica" do século XVII não foi propriamente uma revolução, no sentido de uma ruptura com o passado. Terá sido basicamente o culminar de um gradual progresso científico cujas raízes remontam às primeiras universidades do século XII — fundadas pelos filósofos escolásticos e protegidas pela Igreja de Roma.
Outro mito que ocupa Stark é o da revolução industrial como produto do desígnio central de governos esclarecidos. Em rigor, quase o contrário pode ter acontecido. A Inglaterra, a Holanda e a liga das cidades hanseáticas lideraram a industrialização porque os direitos de propriedade e o primado da lei sobre a vontade das cortes estava aí solidamente estabelecido. A origem desse primado da lei sobre o poder político deve ser procurada na Magna Carta de 1215 – que no próximo ano de 2015 celebrará a simpática idade de 800 anos. A Inglaterra tinha ainda a vantagem adicional de não ter uma larga corte centralizada em Londres, financiada por impostos. A aristocracia estava dispersa pelo país, nas suas vastas propriedades, de que não era absentista, e por isso procurou rentabilizá-las descentralizadamente, através de inovações e investimento.
A centralização é aliás um dos alvos preferidos de Rodney Stark. Isso leva-o a criticar o Império Romano, que só terá assistido a dois progressos maiores: a invenção do cimento e a emergência do cristianismo, sendo que este último contou com a severa oposição imperial. A queda do Império Romano, argumenta Stark, foi aliás altamente benéfica para a Europa e o Ocidente. Removeu um sistema altamente centralizado e caro, fundado em impostos altos, e deu lugar a uma vasta pluralidade de centros de decisão que concorriam entre si e que tinham de gerar auto-sustento.
A lista de observações politicamente incorrectas é interminável. O livro está escrito num tom algo panfletário, por vezes bastante divertido, mas não é um simples panfleto. Stark mobiliza uma vastíssima bibliografia académica. Basicamente, articula num único livro o que muitos autores vêm dizendo em áreas mais especializadas. Vale a pena citar as suas palavras de conclusão:
"Sem dúvida que a modernidade ocidental tem as suas limitações e os seus descontentes. Ainda assim, é de longe melhor do que as alternativas – não só, nem primariamente, devido à sua tecnologia avançada, mas devido ao seu comprometimento fundamental com a liberdade, a razão e a dignidade humana".

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