A Praça de S. Pedro

DN, 20090430
Maria José Nogueira Pinto
Para nós, a importância de S. Nuno de Santa Maria vem especialmente da sua acção.

Roma, 26 de Abril de 2009. Na Praça de S. Pedro, na cidade capital da Cristandade, perante uma multidão de quarenta mil fiéis, o Papa Bento XVI proclama cinco novos santos.

Os rostos e as imagens dos "servos de Deus" hoje promovidos à glória do Calendário dos Santos, estão ali expostos em frente da Basílica: são eles Santa Gertrude Comensoli, uma religiosa italiana de Brescia; S. Bernardo Tolomei, um teólogo medieval; D. Arcangelo Tadini, um sacerdote italiano fundador de obras sociais; Santa Catarina Volpicelli, uma militante do Apostolado da Oração. E S. Frei Nuno de Santa Maria Álvares Pereira.

Deste, o Papa, na alocução em que traçou o perfil dos canonizados e a razão da sua santidade, referiu a sua extrema confiança em Deus, a sua fé, como regra permanente de acção na vida. Exaltando o papel de Nun'Álvares na independência de Portugal, Bento XVI referiu as virtudes de fé, de esperança e de caridade do novo santo e o papel dos portugueses na cristianização do mundo.

Ao instituir os santos, a Igreja não só quer distinguir aqueles que são mais santos que os outros (já que em princípio todos os homens e mulheres que se salvam, são santos) mas apontá-los como modelos aos fiéis, aos outros cristãos.

Para nós, a importância de S. Nuno de Santa Maria vem especialmente da sua acção, como comandante militar na guerra da independência de 1383-1411 contra os invasores castelhanos. Depois do Fundador, Afonso Henriques, é Nun'Álvares a pessoa a quem mais devemos ser independentes, existirmos como Nação. Foi ele quem, com um grande patriotismo, servido por coragem e decisão, venceu nos dois anos decisivos de luta - 1383-1385 - as batalhas dos Atoleiros, de Aljubarrota e de Valverde, que acabaram com as pretensões de Castela.

E por toda esta guerra ele foi sempre o chefe militar, aliando a capacidade estratégica ao rasgo táctico. E não hesitando, quando o entendeu ser o bem comum, contrariar o próprio rei, D. João I. Como na escolha do tempo e do lugar da batalha de Aljubarrota. E sempre se conduziu como um soldado cristão coerente, na razão da guerra - guerra justa de defesa do povo e do território pátrio - e no modo de a fazer - cristamente, poupando os civis, tratando bem os prisioneiros e os seus próprios homens.

E no fim, sendo o homem mais rico do Reino, despojou-se e viveu os últimos anos como monge carmelita, no Convento do Carmo que fundara.

A sua canonização foi também uma longa jornada, através da História, a partir da uma fama e culto populares, que também por razões de Estado (da Espanha no século XVII, e não só) foi complexa. Mas em 1918, Bento XV, reconhecendo essas virtudes cristãs na sua vida - e particularmente na vida militar - beatificou-o como exemplo do soldado cristão no tempo em que os filhos da Europa cristã se matavam na Flandres.

Agora chegou ao fim o processo. Foi uma emoção estar em Roma, neste dia, com tantos portugueses, peregrinos unidos na mesma fé e no mesmo orgulho: de todas as idades - desde crianças de colo a adolescentes ruidosos, passando pelos adultos e os mais velhos - de todas as condições, de todas as origens, com bandeiras, lenços, insígnias e outros sinais que nos identificavam como um corpo, ali na imensa Praça de S. Pedro. E o clamor de júbilo que lançámos, neste grande dia para todos os portugueses e especialmente para os católicos.

Nem nos abalaram os comentários, fruto de ignorância e má-fé, daqueles que, exigindo e intimidando para que se respeitem supostos direitos e opções de todas as minorias, num complexo calendário próprio de devoções, pensaram poder ofender, nos seus artigos e declarações públicas, uma grande parte do povo português que em Nun'Álvares admirará sempre o herói da independência nacional e o santo que viveu na fé e na confiança de Deus.
1 comentário

Mensagens populares deste blogue

Sou mãe de um forcado. E agora?

16 de Julho - Nossa Senhora do Carmo

A família, espaço de resistência