Os pobres, os ricos, os irresponsáveis e os anopluros

Público, 16.04.2009, Helena Matos

A tutelização das famílias pelos serviços sociais acaba geralmente um dia com o verniz a estalar

Perguntar-se-á o leitor: "Quem são os anopluros?"

Perguntar-se-á o leitor e perguntaram-se várias famílias que receberam um comunicado da escola dizendo que as crianças tinham anopluros e que a escola esperava que os ditos anopluros fossem extintos. Ao lado uma ilustração dava conta do animalejo que assim era designado e cujo nome comum, piolhos, vinha escondido no meio duns parêntesis.

O que levaria uma escola a optar pelo nome em latim ou, mais precisamente, a passar mal para português a designação latina anoplura? Não só não era suposto que os piolhos existissem naquele radioso Portugal - estes anopluros nasceram naquele tempo bendito em que só os incréus alertavam para a crise! -, como ainda se temia que algumas pessoas ficassem ofendidas, caso fossem confrontadas directamente com o facto de os seus filhos terem piolhos. Assim, com o termo anopluros, o problema parecia mediado, como agora se diz. Ou pelo menos apresentável, em eduquês.
Claro que depois dos anopluros vieram a sarna, os percevejos e a tinha. Pelo meio e convivendo alegremente com tudo isto andavam as pulgas. No fim desta peregrinação por problemas que se consideravam extintos desde aquelas longínquas épocas em que os linces se passeavam na serra da Malcata, os piolhos já se chamavam piolhos, até porque entretanto os parasitas se tinham tornado uma banalidade. Mas perante os novos problemas que vulgarmente se designariam como indisciplina e desrespeito das famílias pela escola, o que se mantinha idêntica era a predisposição para usar uma linguagem tão mais codificada quanto menos se pretendia enfrentar a realidade. A violência entre alunos, sobre professores e funcionários passou a ser designada como disfunção ou outra coisa qualquer que transformasse as agressões em actos sem autores nem vítimas. Quiçá uma performance. O resultado ficou à vista quando gravações no YouTube mostraram a quem quis ver o que oficialmente não existia. Tal como os piolhos passaram a ser apenas piolhos e não anopluros quando apareceram parasitas piores, também as agressões deixaram de ser situações de disfunção com vários actores, quando se viram professores a levar chapadas de alunos e se percebeu que, em Beja, uma escola estava sem conselho directivo porque nem professores nem funcionários conseguiam garantir a sua segurança quanto mais a dos alunos perante uns grupos que volta e meia entravam por ali dentro devidamente munidos de paus e vontade de partir.
Mas desiluda-se quem pense que a praga dos anopluros alguma vez será extinta. E quando escrevo praga dos anopluros não estou a falar dos animaizinhos ou piolhos propriamente ditos, mas sim desta incapacidade de descrever o que realmente acontece, o que necessariamente implica adiar as soluções. Um exemplo típico desta abordagem tipo anopluro foi o alarido gerado esta semana em torno da revelação de que "Crise leva crianças com fome ao hospital". Independentemente de existirem casos de fome em Portugal gerados por esta crise, nesta notícia a crise era apenas o anopluro da questão. Tudo devidamente espremido resumia-se a uma assistente social perorando sobre famílias que "valorizam muito o aspecto, mas deixam cair as coisas importantes e fundamentais", como a alimentação. Cantinas escolares a funcionar todo o dia foi logo uma das soluções propostas para resolver o problema, sendo que se presume que essa desresponsabilização absoluta das famílias pelas refeições das suas crianças consistirá naquilo que a dita assistente social define como abordagem "estratégica no sentido de capacitar a família e nunca de a confrontar com estas fragilidades". Enfim, tal como as crianças não têm piolhos mas sim anopluros, as famílias que gastam o dinheiro em roupa de marca e não fazem sopa também não devem ser confrontadas "com estas fragilidades". A isto chama-se assistencialização, caridadezinha, apatetamento. Mas o pior é que a desresponsabilização das famílias e a sua tutelização pelos serviços sociais acaba geralmente com o verniz a estalar um dia. Mais precisamente naquele fatídico dia em que as assistentes sociais são substituídas pelos jornalistas, sociólogos e polícias que dão conta das "fragilidades" dessas populações.

Jornalista
(helenafmatos@hotmail.com)

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