O factor decisivo da liberdade

Diário de Notícias, 20090427

João César das Neves

Esta santa liberdade é aquilo de que mais precisamos na crise dos 35 anos da nossa democracia.

No dia seguinte à celebração dos 35 anos da democracia, estranhamente, levanta-se de novo das profundezas do passado a figura de D. Nuno Álvares Pereira. A ocasião é a sua canonização por Bento XVI.

Portugal está hoje em crise. Como estava aquando da sua beatificação por Bento XV a 23 de Janeiro de 1918. Como esteve durante grande parte da vida do Santo Condestável. No meio dos problemas, D. Nuno sempre pareceu demasiado perfeito, acima deste mundo. Vemo-lo saído de um romance de cavalaria, esculpido em mármore, feito em banda desenhada.

Mas ele nunca foi uma personagem de fantasia. Vê-se isso pela sua longevidade. Galaaz, como James Dean, gastam--se depressa, mas D. Nuno viveu quase 71 anos, de 24 de Junho de 1360 a 1 de Abril de 1431. Vê-se pelo pragmatismo. Militar genial e político astuto, os inimigos tinham-lhe uma alcunha: "Nuno madruga"(Anónimo Crónica do Condestável, CC, cap. 66), atacando sempre antes dos outros acordarem.

Vê-se ainda pelo realismo. "Quando os seus homens saíam de Elvas o alferes que levava a bandeira, não reparando na altura das portas, partiu sem querer o estandarte do seu senhor, o que foi entendido por muitos como um mau presságio. Disseram então a Nuno Álvares que o melhor seria adiarem aquela ida a Vila Viçosa, mas o valoroso cavaleiro não deu ouvidos às superstições e limitou-se a substituir a haste da bandeira. Seguindo tranquilamente o seu caminho" (CC 38).

O traço de carácter que mais o define é a liberdade. A liberdade de Portugal face a Castela foi o tema central da sua acção. Mas também a liberdade face às riquezas e às honras, que distribuiu em vida e abandonou no convento.
Liberdade perante o perigo: em Valverde "como era seu costume em momentos de aflição, o Condestável ajoelhou-se a rezar. As setas e as pedras do exército castelhano não deixaram de chover, pondo em grande perigo a sua vida e a de todos os seus soldados. (...) Perante tanta agitação o Condestável mantinha o maior sossego do mundo e continuava o seu louvor a Deus. Quando acabou de rezar levantou-se com grande vigor e ordenou a Diogo Gil, seu alferes que andasse com as tropas da vanguarda" (CC 54).

Liberdade perante a intriga: "Em segredo, diziam mal dele e combinaram que, por mais acertadas que fossem as suas opiniões, iriam contra elas, intenção que foi descoberta por Nuno Álvares. Um dia, falando o Mestre perante o seu conselho, colocando-lhes uma importante questão, respondeu Nuno Álvares como lhe pareceu ser melhor serviço de Deus e do Mestre. É claro que todos os outros membros discordaram dele, o que fez com que Nuno Álvares começasse a rir, porque sabia o motivo pelo qual contra--argumentavam" (CC 20).
Liberdade até perante as inimizades: "Não bastava dar esmolas no reino de Portugal, ainda, um ano em que Castela esteve com muita falta de pão, vieram à comarca de Entre Tejo e Guadiana cerca de quatrocentos castelhanos, entre homens, mulheres e moços pequenos, os quais lhe disseram que padeciam de fome. (...) Ordenou que lhes fosse entregue, cada mês, quatro alqueires de trigo, o que foi feito durante quatro meses, até que os castelhanos seguiram para as suas terras" (CC 80).

Assim a sua santidade foi reconhecida até pelos inimigos: "Pernoitando num sobreiral, onde foram ter dez escudeiros castelhanos, que pareciam ser homens de bem. D. Nuno recebeu-os perguntando--lhes quem eram, ao que eles responderam que eram naturais do Reino de Castela. Tal afirmação não surpreendeu o Condestável, que lhes disse que os considerava homens muito ousados para irem ter com ele sem salvo-conduto. Os escudeiros justificaram tal ousadia pela vontade que tinham de o conhecer pessoalmente, constando a sua grande bondade e as virtudes que Deus lhe concedera. Perante tal resposta o Condestável convidou-os para jantar, mas eles declinaram uma vez que já tinham realizado o seu desejo" (CC 66).

S. Nuno de Santa Maria foi sempre um homem radicalmente livre. Esta santa liberdade é aquilo que mais precisamos na crise dos 35 anos da nossa democracia

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