Nós, europeus

Maria José Nogueira Pinto
DN, 2009-04-16

Por todo o País está já afixado o cartaz do cabeça de lista do PS às europeias. Como primeiro prenúncio do ano eleitoral, preguiça nele, de norte a sul, o olhar vago do cidadão. Lá está o Professor Doutor de Coimbra e a frase intrigante: "Nós, europeus." O que perturba é a vírgula: nós, portugueses? Nós, socialistas? Nós, professores doutores? À procura do "nós", damo-nos conta de que a conversa não é connosco, que fomos excluídos.

E é mesmo assim. Europa e União Europeia são, para alguns, uma e a mesma coisa, e quem não for um adepto incondicional desta UE renega a sua condição de europeu. Este círculo dicotómico e vicioso não resolve o problema de fundo, ou seja, como estes truques desinteressam os cidadãos ditos europeus, que não se revêem nesta supra- -estrutura, supra-estadual e supra-ausente dos seus quotidianos. Entre a ideia de Europa de George Steiner, tão romântica quanto nostálgica - a do sonho de o homem comum seguir as pisadas de Aristóteles e Goethe, a dos filhos de Atenas e Jerusalém, a da demanda do conhecimento desinteressado e da criação de beleza como traços identitários do ser-se europeu -, e a dos novos senhores, poucos e sempre os mesmos, que empurram, puxam e martelam para moldar a Europa a uma forma de alumínio burocrata, regulamentadora e monocórdica, eu e muitos outros europeus escolhemos a primeira.

As uniões económicas e financeiras são muito mais fáceis de gerir do que as ideias, e as verdadeiras questões só surgem quando se discute o modelo político. Somos espectadores desta longa e atribulada saga que o Tratado de Lisboa parece incapaz de resolver: desde as conse- quências de um extemporâneo alargamento, até ao incó-modo "não" irlandês, passando pelo fracasso da famigera- da Constituição Europeia. Nós, por cá, nunca fomos ouvidos. Nem mesmo aquando do Tratado de Lisboa e apesar da promessa eleitoral do PS. Os argumentos para nos remeterem ao silêncio foram extraordinários, e quando os meramente processuais se esgotavam evocava-se a complexidade da matéria: os portugueses nunca poderiam votar algo que não eram capazes de compreender. Fomos excluídos do processo por incapacidade cognitiva…

Uma das piores consequências desta exclusão foi a ideia que o português comum fez da União Europeia: a do dinheiro fácil, uma espécie de bodo aos pobres a distribuir por empresas-fantasma de formação profissional e por construtores de obras públicas, milhões e milhões enviados com o propósito de recuperarmos atrasos estruturais, mas recebidos como se não tivessem contrapartida da nossa parte, não exigissem um compromisso sério e colectivo para o desenvolvimento do País. Gastos os milhões em sinais exteriores de moderni- dade, a batalha pe- lo desenvolvimento - sobretudo o humano - foi perdida.

A União Europeia, entretanto, ensarilhou-se nas suas próprias contradições internas, particularmente visíveis em momentos históricos em que os interesses dos Estados mais fortes se sobrepõem a qualquer política ou estratégia comum. Basta pensar nas tomadas de posição relativamente à invasão do Iraque ou, mais recentemente, face à crise económica e financeira. Progressivamente radica-se a ideia de que aquela megaestrutura burocrática, distanciada dos cidadãos, reproduzindo o afã regulador próprio das instituições fracas e aparentemente incapaz de tomar o nosso destino nas suas mãos, composta por chefes sem carisma nem qualidade, tem pouco futuro.

A Europa não se esgota nisto, e o sonho europeu, a existir, vai muito para além desta permanente negociação de interesses próprios sob o pretexto da salvação e da glória colectiva. Questionar o actual modelo da União Europeia é um dever de qualquer europeu livre. Porque a Europa ou somos todos nós ou não existe.

MARIA JOSÉ NOGUEIRA PINTO

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