O presente na vida moderna

Miguel Tamen
Observador 26/12/2015

A situação moderna do presente indica uma noção peculiar de pessoa; segundo essa noção, as pessoas servem para satisfazer desejos de outras pessoas; e também para ver os seus desejos satisfeitos.
A teoria moderna é a seguinte: dar presentes é um contrato; como todos os contratos depende da vontade das partes; portanto dar presentes depende necessariamente da vontade de quem os recebe. À teoria está associada uma segunda teoria acerca da vontade: sempre que um animal tem vontade não é lícito ignorá-la; não é assim lícito ignorar a vontade daquele a quem se dá um presente, desde que não seja uma criança, ou um animal muito pequeno.
O resultado destas duas teorias observa-se nas cerimónias que dominam a oferta moderna de presentes. Note-se que a oferta de presentes não é em si sórdida; e pode nalguns casos ser maravilhosa. Nem a sordidez nem a maravilha têm a ver com a quantidade de dinheiro que se gasta em presentes: um presente caro pode ser maravilhoso e um presente frugal pode ser sórdido. O que é sórdido é, por ordem crescente de sordidez: a pessoa que vai receber o presente saber que vai receber aquele presente; a pessoa que vai receber o presente manifestar explicitamente a sua vontade; a pessoa que vai receber o presente comprar o seu próprio presente; a pessoa que vai dar o presente deixar que a pessoa que o recebe o compre. Quando se verifica esta última situação já não estamos diante de um presente mas simplesmente diante de alguém que subsidia a vontade de terceiros.
O modelo predominante é o modelo do subsídio da vontade de terceiros. E só a manifesta impreparação dos menores de seis anos impede que esse modelo prevaleça em todos os casos. Mal porém a infância dá sinais de alívio a vontade do destinatário passa a reinar sem impedimentos. Para encorajar a tendência o comércio inventou diversas formas de cheque, com as quais se podem comprar livros e lingerie. Um cheque-lingerie, todavia, ainda restringe, por trivial que seja a restrição, a vontade do destinatário: não poderá este por exemplo comprar artigos para o lar. O nadir daquilo que em si já é uma tragédia é o processo que consiste em dar directamente dinheiro a quem se quer dar presentes. Com o dinheiro desaparecem as últimas restrições à vontade do destinatário, e triunfa o horror a tudo o que lhe escapa.
A situação moderna do presente indica uma noção peculiar de pessoa; segundo essa noção, as pessoas servem para satisfazer desejos de outras pessoas; e também para ver os seus desejos satisfeitos. Mas como o conhecimento dos desejos das pessoas é sempre incerto, a maneira mais prática de resolver o problema é, para evitar surpresas, deixar aos interessados a especificação desses desejos. Quer isto assim dizer que, apesar das estatísticas animadoras do comércio, a actividade que consiste em dar presentes está em declínio. Para dar um presente, e para realmente dar alguma coisa a alguém, a única coisa que não se deve ter em consideração é a vontade de quem recebe.
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