domingo, 27 de dezembro de 2015

Hipócrates

Paulo Baldaia
DN 20151227
Como é possível que alguém jure "solenemente consagrar a sua vida ao serviço da Humanidade", garantir que "a saúde do seu doente será a sua primeira preocupação" e que guardará "respeito pela vida humana" e venha depois para os jornais denunciar que houve várias mortes num hospital por falta de cuidados médicos, sem que nada tenha sido dito de lá até cá? É um desrespeito pela família de David Duarte a forma como se transformou a morte numa luta política e corporativa com um claro ajuste de contas em relação ao anterior ministro da Saúde. Não digo que não haja responsabilidades políticas no que aconteceu. Se os médicos não queriam ir, porque lhes reduziram a compensação financeira em 50%, era preciso garantir uma melhor organização, enquanto não fosse possível estabelecer um acordo entre empregadores e empregados. Essa será a responsabilidade máxima de Paulo Macedo, tudo o resto tem muito mais que ver com as administrações hospitalares, os médicos e os enfermeiros.
A defesa do bem comum não se faz com políticos que resolvem tudo, tenha os custos que tiver para os contribuintes ou com médicos e enfermeiros que só encontram tempo onde há dinheiro. Olhando para a notícia do Expresso de quinta-feira e pondo-me a jeito de corporações que gostam pouco de ser postas em causa, não posso deixar de fazer perguntas para as quais tenho grande dificuldade em encontrar respostas que não me pareçam absurdas:
1 - Fontes hospitalares garantem que a morte de David Duarte foi a quinta, desde que deixou de haver equipa ao fim-de-semana. O que levou médicos e enfermeiros a não denunciarem cada uma destas mortes, procurando assim evitar as que se seguiram?
2 - Tendo já havido quatro mortes por não resistirem à espera do fim-de-semana e sabendo a gravidade do estado de saúde de David Duarte, por que razão não foi chamada de urgência uma equipa para o operar?
3 - Já depois dos cortes correspondentes a cerca de 50%, por cada dia de piquete, um enfermeiro recebia 130 euros e um médico 250, mesmo que não tivessem de ir ao hospital se não houvesse cirurgias para fazer. Morreram cinco pessoas "em consequência dos cortes cegos, insensatos e absurdos" como acusa o bastonário dos médicos, José Manuel Silva?
Lamento, absurdo mesmo é querer reduzir o que se passou no Hospital de São José a uma questão político-financeira. Mesmo o actual ministro, Adalberto Campos Fernandes, reconheceu que não se tratou apenas de uma questão financeira, salientando que faltou organização naquele hospital. Não posso deixar de olhar para a defesa corporativa que foi feita neste caso, sem pensar que é com grande hipocrisia que muita gente faz o juramento para exercer a profissão.
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