quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Fábulas de velhice

João César das Neves
DN 2015.12.30

O que têm Han Solo, Marine Le Pen e António Costa em comum? Uma das questões mais decisivas da humanidade: envelhecimento. O fim do ano é boa altura para falar de idade, pois lembra que a velhice tem pouco que ver com evolução cronológica. Há quem envelheça na adolescência e quem se mantenha sempre jovem. Algo ou alguém só fica velho quando se fecha em si, quando deixa de frutificar, caindo na nostalgia, na repetição e na auto-referência. Uma floresta renasce todos os anos enquanto empresas viçosas caem subitamente na decadência.
A saga Star Wars é uma fábula na arte de rejuvenescer. O filme de 1977 representou espantosas novidades na ficção científica, então decadente. Nova estética, novas ideias, enredo original. Mais notável, as continuações de 1980 e 1983 acrescentaram elementos inspirados e inesperados ao quadro inicial. Nasceu um marco na história do cinema que, embora datado numa arte que evolui rapidamente, ainda é visto com agrado.
A segunda série, vinte anos depois, em 1999, 2002 e 2005, apostou num alargamento do âmbito, abrangendo mais culturas e complexas questões políticas e estratégicas. Apesar de novo sucesso, já não manteve o ritmo: preso no enredo do protagonista, o último filme revela tacanhez e cansaço. Pela primeira vez A Guerra das Estrelas parecia velha.
Recomeçar após 40 anos seria sempre difícil, mas O Despertar da Força, de J. J. Abrams, apresentado neste mês, escolheu como tema, simplesmente, a própria saga Star Wars. Copiando o enredo primitivo e mantendo os agora idosos actores originais, insiste em não trazer nada de novo. Não é um remake, não é uma sequela, é apenas uma autocelebração nostálgica, triste homenagem póstuma.
A dinâmica de juventude e velhice também domina a política europeia. Por todo o lado surgem forças que se apresentam como novas, acusando as tradicionais de antiquadas. Realmente nenhuma das linhas doutrinais é original: Syriza ou Podemos são velhos esquerdistas, Ciudadanos liberais ainda mais clássicos. Em todos é a frescura da retórica que mascara as rugas.
O caso mais surpreendente e ameaçador é Marine Le Pen, em França. Não existe ideologia mais identificada com o passado do que a extrema-direita. Jean-Marie Le Pen, como Donald Trump, nos EUA, é digno representante dessa ideologia e desse passado. Por isso há que admirar a capacidade da filha em apresentar como frescas e atraentes as teses que destruíram os nossos avós.
Se J. J. Abrams mostra como envelhecer algo subitamente e Marine Le Pen rejuvenesceu uma instituição morta, o governo de António Costa manifesta o caso paradoxal de algo que nasce já velho.
Os anteriores executivos democráticos sempre trouxeram novidades ao país. No PS, Soares em 1976, Guterres em 1995 e Sócrates em 2005 tinham ideias originais e um projecto de futuro. O sucesso variou bastante entre os três, que envelheceram a ritmos distintos, mas todos nasceram com algo de original e extrínseco para contribuir. Em 2015, pela primeira vez nesta democracia, Portugal tem um governo assumidamente retrógrado e autocentrado.
O programa de António Costa é conservador, quase reacionário: trata-se de voltar a 2008 e restabelecer benefícios que os grupos sociais gozavam antes da crise. Como essas regalias fizeram explodir a dívida e cair no colapso, agora o dinheiro não chegará para todos. O governo presidirá ao combate das corporações, onde ganharão as de maior influência. A reversão das privatizações e concessões nos transportes, por exemplo, não interessa ao país, ao público, nem sequer aos utentes. Está na ordem do dia só por bafientas imposições ideológicas e influências sindicais.
Por outro lado, o narcisismo do executivo é evidente. Com os olhos no umbigo, o propósito actual do PS é só permanecer no poder, quase sem olhar para o país. Dirá tudo o que precisa de dizer para ficar onde está. Obrigado pela derrota eleitoral a negociar à esquerda, aceita as agendas mais abstrusas como preço do posto, que depois o obriga ao oposto. Por exemplo, é verdade que a culpa da queda do Banif é do anterior governo, mas também é verdade que se este tivesse feito o que devia, o PS teria estado na primeira linha da contestação, condenando veementemente aquilo que hoje vê como necessário.
Esta tacanhez auto-referencial, extensível a outros partidos, é a manifestação mais evidente do envelhecimento da nossa classe política. Não interessa o diagnóstico e a terapêutica nacionais, apenas mandatos e benesses. O mal do governo não é tanto a crise do país, mas, tal como Han Solo, parecer avô de si mesmo.
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