Carvalho e Figueiredo, rua!

Eduardo Cintra Torres
Correio da manhã 20.12.2015 01:31 

A pseudo-entrevista a nada respondeu porque nada foi perguntado. 

A presença de Sócrates na TVI apresentou-se como uma operação montada para ser um tempo de antena. Foi preparada por ele com o seu amigo Sérgio Figueiredo, director de Informação do canal, que o visitou quatro vezes na ‘casa emprestada’ pela ex-mulher do ex-primeiro-ministro. O ‘entrevistador’ José Alberto Carvalho também foi à mesma casa pelo menos uma vez. Sócrates foi recebido na TVI com honras de chefe de Estado ou chefe de Governo em exercício. O director-geral e Figueiredo foram à porta ao beija-mão. Depois, foi o que se viu: duas horas e um quarto de tempo de antena no noticiário mais visto do País. Nunca ninguém em Portugal, nem Salazar ou Caetano, nem qualquer político em democracia, teve semelhante privilégio. Foi uma pseudo-entrevista durante 1h08 em directo mais 01h06 em gravação no dia seguinte. Sócrates, Figueiredo e Carvalho prepararam este tempo de antena e chamaram-lhe entrevista. Não houve perguntas, apenas simulações. Sócrates foi debitando o que lhe apeteceu sobre os temas previamente acordados, sem mesmo ter de ouvir as ‘perguntas’ até ao fim. Orientou as declarações como quis. Quando já não lhe interessava aflorar os seus ‘casos’, sugeriu falar de política e Carvalho fez-lhe a vontade. A pseudo-entrevista a nada respondeu porque nada foi perguntado. Sócrates apenas acrescentou insultos ao Ministério Público, à Procuradoria-Geral, à Justiça e também ao CM. Estas duas horas e um quarto foram um dos momentos mais negros do jornalismo português em décadas. Um frete monumental, uma vergonha para todos os jornalistas. Num media normal, Carvalho seria imediatamente afastado do ecrã e Figueiredo imediatamente demitido do cargo de director de Informação. Atingiram gravemente a honra dos jornalistas da TVI e de todos os jornalistas portugueses, insultaram os seus espectadores. Além desta pouca-vergonha, a TVI dedicou no domingo horas dos seus espaços de informação a ‘notícias’ e ‘reportagens’ de promoção da EDP. Figueiredo foi administrador no grupo EDP desde 2007 (nomeado no tempo do governo Sócrates, quando a EDP era empresa pública), donde saiu directamente para a TVI. A directora de comunicação da EDP, Ana Sofia Vinhas, que foi da TVI, onde o seu marido integra a direcção de Informação, é presença constante nos ecrãs. Esteve na sexta-feira no ‘Você na TV’. Finalmente, com total irresponsabilidade, a TVI deu uma notícia falsa sobre o BANIF no domingo à noite. Sob a direcção de Figueiredo, a informação da TVI atingiu o desnorte ético mais completo. De cavalo para burro Uma célebre metáfora de estudiosos americanos considerou que a cobertura de TV das presidenciais de 1972 nos EUA fez delas uma corrida de cavalos. Uma reportagem de Pedro Coelho na SIC usou a frase e foi mais longe: mostrou mesmo três cavalos, representando Marcelo, Belém e Nóvoa. Estamos no domínio do ‘jornalismo inteligente’: se nós, TV, fazemos dos candidatos cavalos, então mostremo-los como cavalos. Com doçura e conversa, conseguiu ainda o milagre do enviesamento iluminado: só apresentou imagens negativas para Marcelo, só Marcelo teve um adversário criticando-o, Belém só teve uma pergunta difícil, e colocou Nóvoa nas nuvens, incólume a qualquer referência negativa ou crítica. Pensem, para não nos enganarem Muitos canais de TV disseram que Madonna foi "de surpresa" à Praça da República em Paris homenagear as vítimas do terrorismo. Duas coisas. Primeira: o que significa alguém andar na rua "de surpresa"? Deveria avisar? Segunda: ela avisou mesmo! Não foi "de surpresa" – estavam lá duas câmaras profissionais de TV! 
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