quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Conto de Natal

João César das Neves
DN 20151223
Mafalda tinha medo. Tinha muito medo. Com os seus 8 anos, não entendia bem as conversas dos pais e da televisão, mas sabia que as coisas estavam mal. Terrorismo, guerras, crises, políticos e partidos ruins eram ameaças que mantinham os pais preocupados e ela aterrada.
O medo era tanto que uma das noites antes do Natal, quanto toda a gente estava a dormir, Mafalda decidiu mandar uma mensagem ao Menino Jesus. Levantou-se sem fazer barulho, vestiu o roupão e as pantufas, como a mãe mandava ("Nunca se sai da cama sem pôr o roupão e as pantufas.") e foi muito devagarinho até ao presépio.
Chegando próximo da manjedoura vazia disse a Maria: "Nossa Senhora, eu peço que avises Jesus de que neste ano é melhor Ele não nascer. Isto aqui está muito mal,; há muita gente a morrer. É melhor Ele não vir. A mim ninguém me avisou, e por isso nasci e tenho tanto medo. Mas se o avisares, não lhe fazem mal."
A oração foi intensa, mas a pequenina adormeceu ali mesmo, encostada à mesa do presépio. No seu sonho viu aproximar-se um rapaz. Tinha a cara muito pálida e uma ferida na cabeça, de onde escorria sangue. Olhava-a a sorrir, mas foi Mafalda a primeira a falar: "Quem és tu? Quem te fez mal? Foram os terroristas? És um dos meninos que morreram na televisão?"
"Não. Eu não estive na televisão. Não sou desses. Embora...", disse ele pensativo, "possas dizer que fui morto por terroristas. Mas não nesses atentados de que ouvistes falar".
"Então deves ser daqueles que os capitalistas matam. O pai diz que os senhores dos bancos e das empresas, os ricos, roubam todos e matam os pobres."
"Bem, foi um rico que me matou, mas não tinha bancos nem empresas."
"Já sei. És um dos bebés mortos antes de nascer. A minha mãe diz que os partidos querem destruir as famílias e pagam para as mães matarem os seus filhos pequeninos. És um deles?"
"Não. Não sou vítima do aborto. Também fui morto quando era muito pequenino, mas não foi assim. Eu sou daquela parte do presépio de que ainda não te falaram. Nasci umas semanas antes de Jesus, na mesma cidadezinha que Ele. Só que o rei daquela zona, quando soube que tinha nascido o Messias, quis matá-lo. Como não sabia quem Ele era, mandou destruir todos os recém-nascidos da zona. Foi assim que morri. Como vês, na altura de Jesus também havia terroristas e ricos assassinos de criancinhas, mesmo se diferentes dos teus. Jesus sabia disto, mas veio na mesma."
"Queres dizer que vocês morreram, mas Ele ficou vivo?"
"É verdade, foi poupado para depois morrer uma morte muito pior do que a nossa, na Páscoa. O que interessa não é isso. O que interessa é que Ele ressuscitou, e o mundo mudou. Agora sabemos que vale a pena viver, desde que vivamos com Jesus. Agora sabemos que a morte, mesmo a morte mais horrível como a minha, não é o fim, mas o princípio da vida. Tu não deves dizer a Jesus para Ele não nascer. Deves perceber que, como Ele nasceu, já não é preciso ter medo."
"Não é preciso ter medo!?"
"Sim. Agora, o que quer que aconteça, estamos com Jesus. Mesmo que tudo corra muito mal, está bem por irmos com Ele. Sabes, esta ferida na minha cabeça só cá está porque eu quero. No sítio onde vivo com Jesus não há mais dores, a não ser aquelas que abraçamos. Eu quis manter a ferida, porque me orgulho dela, pois me lembra quem sou e onde estou. Quando olhamos para Jesus nada dói. Cada vez que me distraio, a dor lembra-me porque estou ali, que morri por Jesus e não devo tirar os olhos d"Ele."
"Quando olhamos para Jesus não dói nada?"
"Claro. Deus é amor. Isso era o que nós não sabíamos, e Jesus veio dizer. Deus é amor. O mundo que foi feito por amor e só existe por amor. Como tu nasceste do amor dos teus pais e vives do seu amor. Quando o mundo se esquece disso, quando deixa de olhar para Jesus, faz o mal, mata, rouba e destrói. Por isso tens razão no que dizes sobre o mundo, porque há muito mal."
"E isso não é para ter medo?"
"Não, pois Jesus gosta sempre muito de nós. E é Ele quem manda. É o dono do mundo. Ele nunca deixa de nos amar. Ele gosta de nós, mesmo que façamos o mal. Tu percebes isto bem com os teus pais. Por exemplo, tu sabes que quando acordares vais estar metida num grande sarilho. Amanhã de manhã a tua mãe vai ver que estás a dormir na sala e ficará muito zangada. Mas ela gosta tanto de ti que, mesmo quando se zanga e te castiga, tu não tens medo dela, porque sabes que ela te ama muito. O mal que fizeste vai doer, mas quando olhas para a tua mãe não dói."
Mafalda ficou pensativa e respondeu: "Felizmente vesti o roupão e as pantufas!"
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