quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

A cadeira do poder

João César das Neves
DN 2015.12.02

É divertido ver a quantidade de pessoas que leem os acordos parlamentares do PS com os partidos à esquerda ou o programa do XXI Governo, como se isso significasse algo para o futuro. Mas o mundo mudará logo que o programa seja aceite no Parlamento. Então acaba a propaganda e começa a governação. As coisas são muito diferentes vistas da cadeira do poder. E a primeira coisa que se vê é que o poder é muito menor do que parece.
É evidente que o Partido Socialista assinaria qualquer coisa para ser governo. E é evidente que, uma vez empossado com programa aprovado, o jogo mudará. Muda para os que, de fora, julgam poder controlar o poder, e sobretudo muda para os que dentro são governo. Para um ministro recém-empossado o mundo transforma-se de repente.
A ingenuidade daqueles que levam a sério as jogadas das últimas semanas é ainda maior porque têm exemplos recentes que mostram a enorme distância que costuma ir das promessas à realidade, mesmo com maioria. Em 2005, José Sócrates também garantiu que não ia aumentar impostos. Na altura o argumento era muito parecido com os hoje apregoados pelos ideólogos antiausteridade: subir a tributação era a receita errada do governo de direita de Durão Barroso. Logo que começou a governar com maioria absoluta, o primeiro-ministro, declarando-se surpreendido pela terrível situação que o antecessor lhe deixara, voltou com a palavra atrás, após elaborada encenação política, que até envolveu o Banco de Portugal.
Claro que aquilo que tanto o surpreendeu e chocou era simplesmente a situação nacional que toda a gente podia ver, mas que passara ao lado do então candidato a governante. Quem se dê ao trabalho de analisar os indicadores concretos da realidade em vez de atender às jogadas retóricas, então como hoje, rapidamente percebe a vacuidade das promessas. Por isso tantos tinham, desde o princípio, duvidado delas.
É verdade que já passaram dez anos sobre esse grotesco episódio. Não há maioria absoluta e é difícil repetir o ilusionismo político. Mesmo assim, com dívida muito maior, António Costa só tem poder para preparar um número semelhante. O momento será certamente à volta da apresentação do Orçamento, quando o PM informará, descoroçoado, o país de que afinal as condições reais não permitem grande parte daquilo que tão levianamente prometera para conseguir governar. A culpa, evidentemente, não será da sua incompetência, mas da famigerada maldade dos antecessores, que esconderam uma situação muito mais terrível do que o pobre político pensava. Assim, afinal, as promessas eleitorais, os acordos parlamentares e até o programa tão bem-intencionado, acabarão letra morta. Terá graça assistir aos enredos e figurinos originais para esta nova versão da antiga comédia.
Pode pensar-se que, indignados pelo embuste, os partidos de esquerda que sustentam o Governo se vinguem, derrubando-o. Só que, então, também eles tomarão consciência que o seu poder é bastante menor do que parece. Porque quem tiver essa iniciativa ficará com o odioso de demolir um poder esquerdista, abrindo a porta à abominada direita. Isso é eleitoralmente perigoso. Também em 1987 o PRD gerou a queda do governo minoritário do PSD, sendo depois fortemente punido nas eleições que provocou. Assim, desde que a encenação de espanto e contrição do actual governo seja suficientemente convincente, é provável que a esquerda prefira manter as coisas como estão, contentando-se com as magras benesses que o PS lhe vá distribuindo.
Mesmo prevalecendo no Parlamento, como poderá António Costa enfrentar o eleitorado que defraudou? O mais provável é imitar o Syriza grego, que concorreu numa plataforma antiausteridade para agora praticar o mesmo aperto anterior, mas com ar pesaroso. Pode ser que os cidadãos se sintam melhor com ministros que, embora os castiguem na mesma, o façam contrariados, assegurando compreender a revolta popular porque, no seu íntimo, são contra a política que as circunstâncias lhes impõem.
A verdade é que, o que quer que digam, não há dinheiro para promessas. O crescimento económico é medíocre e frágil, a dívida privada é enorme e a pública ainda sobe, a banca cambaleia e os mercados externos estão incrédulos. Com uma situação assim, a severidade europeia é a menor das nossas preocupações. A austeridade nunca foi imposta por capricho comunitário, mas pelas condições de pré-falência do país. Esta é a realidade que a oposição, quem quer que seja, sempre finge ignorar, mas que se revela subitamente quando se sobe à cadeira do poder.
Enviar um comentário