A sucessão de Salazar

Joaquim da Silva Pinto
ionline 31.05.2014
(Parte I)

Contrariando a vontade dos médicos, Salazar exige dispor de uma hora antes de entrar para a ambulância chamada de urgência. Recomenda a Mota Veiga procedimentos processuais no caso de algo correr mal
ESTAMOS EM AGOSTO DE 1968. Salazar enfrenta com estoicismo a notícia sobre a inevitabilidade de uma operação tão melindrosa quanto urgente, diagnosticada por reputado neurocirurgião da escola de Egas Moniz. Esta serenidade controlada surpreende o clínico, que não o internista, médico habitual do presidente do Conselho, pesaroso aliás por não ter atribuído mais cedo a devida importância à contusão na cabeça resultante de uma desastrada queda. Eram ambos reconhecidos elementos da oposição democrática; refiro-me aos professores Vasconcelos Marques e Eduardo Coelho. Com um meio sorriso, Salazar comenta: "Enfim, uma decisão cujas consequências me não poderão ser assacadas." Assistem à cena a atormentada governanta de longos anos e o ministro de Estado Mota Veiga, de quem eu era colaborador chegado nas tarefas do III Plano de Fomento, e me disse pormenorizadamente quanto se passou. Contrariando os médicos, Salazar exige dispor de uma hora antes de entrar para a ambulância chamada de urgência. Pretende avistar-se com o ministro dos Negócios Estrangeiros, Franco Nogueira. Enquanto este não chega recomenda a Mota Veiga procedimentos processuais no caso de algo correr mal. Recusa a lembrança sobre a conveniência de se avisar o chefe do Estado, com seria constitucionalmente o indicado, porque andava azedo com Américo Tomás, que o contrariara aceitando nessa noite participar com a família numa festança promovida por milionário estrangeirado, em moldes sumptuários, com a comparência dos expoentes da economia, do corpo diplomático e dos ministros propensos à folia. Salazar, nas suas convicções austeras considerara o evento uma provocação para a maioria da população e logo politicamente condenável que entidades oficiais comparecessem. "Chamar o Sr. Presidente da República? Seria estragar-lhe o baile", foi o que Mota Veiga obteve como resposta. Chegado Franco Nogueira estiveram 20 minutos à porta fechada. Adivinha-se a transcendência da conversa, seguramente com especial atenção para as repercussões internacionais de um mau resultado clínico, mas também pela habitual cumplicidade sobre a questão ultramarina. Terminado o encontro, Salazar dispõe-se, para alívio dos médicos, a entrar pelo seu pé para a ambulância, dando as boas-noites sem fixar os olhos em ninguém. Durante a noite foi chegando ao hospital tudo quanto de mais representativo tinha o regime. Terão sido para esses horas de ansiedade entre a estima pela pessoa e o receio da instabilidade política. Marcelo Caetano, avisado por Moreira Baptista, recusou-se a comparecer, desejando tão-só que o mantivesse informado. Na manhã seguinte, a intervenção cirúrgica é tida como um êxito. Salazar recobrara os sentidos combalido, mas exprimindo-se correctamente. Vai recebendo visitas, prega um raspanete a Mota Veiga por este ter na circunstância cancelado uma visita oficial, recebe Tomás, a quem pergunta se na festa tinham estado muitas autoridades. Ou seja, crítico contundente, mas mordaz como sempre. Marcelo continua ausente, confirmando o seu agastamento com o presidente do Conselho, desde que anos antes se demitira de reitor da Universidade Clássica de Lisboa, solidário com os estudantes e alguns professores no repúdio de uma intervenção policial em clima de crise académica. Só muda de atitude quando, passada uma semana sobre a operação, ocorre o segundo acidente cerebral, que Vasconcelos Marques por brio profissional negava ser consequência da intervenção.

(Parte II)



Ao saber estar o Presidente de República numa saleta acompanhado por Mota Veiga e outras entidades, decidi-me a abrir a porta, proclamando com vigor: chegou o senhor professor Marcelo Caetano
MARCELO COMPARECE NO HOSPITAL acompanhado por Moreira Baptista e por mim, ambos com funções em S. Bento. Ao saber estar o Presidente de República numa saleta acompanhado por Mota Veiga e outras entidades, decidi-me a abrir a porta, proclamando com vigor: chegou o senhor professor Marcelo Caetano. Recordo que todos se levantaram, incluindo o chefe de Estado, o que mostra o peso político do recém-chegado. À saída Marcelo referiu-nos que tinha sido atentamente ouvido. Tanto Moreira como eu, futuros subsecretários de Estado do governo, que viria a constituir semanas depois, ficámos convencidos de que o processo de substituição de Salazar seria rápido com a designação do nosso líder. Disso se deu conhecimento a outros membros da feição marcelista, designadamente Rebelo de Sousa, que era governador-geral em Moçambique, Dias Rosas e Rui Sanches, ambos no governo, Alfredo Vaz Pinto, carismático presidente da TAP de quem eu esperava ir ser colaborador no Ministério da Economia, como secretário de Estado do Comércio. Generalizado optimismo, que afinal não tinha fundamento. Marcelo foi efectivamente chamado a Belém, logo após Tomás desencadear o processo da inevitável sucessão de Salazar, obtido o parecer clínico de dois outros especialistas. Marcelo vai para o encontro com a lista do seu elenco no bolso. Fica surpreso quando descobre que Lumbrales, ex-sucessor de Salazar nas Finanças, estivera com o Presidente uma hora antes. Mais terá ficado quando Tomás, em lugar de o convidar para chefiar o governo, lhe pediu a indicação, sem se excluir, de três nomes, que entendesse recomendáveis para o cargo. Marcelo nega-se a entrar no jogo, regressa a casa furioso, considerando que o cargo será entregue a outra pessoa. Durante longas semanas, o Presidente ouve todos os actuais e antigos membros do governo, bem como altos dignitários políticos e militares. À medida que avança na lista, chega-se ao ridículo da comparência em Belém de pessoas com menor peso político a mandar dicas sobre quem entendiam preferível para chefe do executivo. Tomás ia recolhendo num caderno as soluções tripartidas para no apuramento final verificar que só o nome de Marcelo Caetano fora por todos referido. Consciente da força política do dito, mas contrariado, decide convidá--lo em fins de Setembro, pondo contudo como condição que se mantivessem no governo, pelo prazo de seis meses, Franco Nogueira nos Estrangeiros e Correia de Oliveira na Economia, por serem pessoas de grande confiança de Salazar, não fosse este recuperar, devendo nessa hipótese Marcelo ceder-lhe o lugar. Este aceita o esquema no convencimento de que o ainda presidente do Conselho estaria em fase terminal, o que de facto ia acontecendo na semana seguinte. Respeita aliás o acordado e só em Março de 1969 afasta Nogueira e Oliveira. Como resultado disto, Vaz Pinto acabou por não ser titular da Economia, sendo designado ministro de Estado, lugar a que nunca se adaptou, e eu fui parar às Obras Pública como subsecretário de Estado, experiência que veio a ser para mim gratificante. Perguntará o leitor onde está desta vez a Pergunta de Difícil Resposta. Formulá-la-ei na próxima crónica.
Por Joaquim Silva Pinto
publicado em 14 Jun 2014 - 05:00

(Parte III)
SERÁ UMA QUESTÃO TEÓRICA , mas frequentemente me questiono sobre quem teria Salazar escolhido para lhe suceder se depois do sério aviso do primeiro acidente cerebral tivesse ficado em condições de ponderar, como seria prudente e decerto lho aconselhariam Supico e Bissaia, ambos maçons, e Lumbrales e Varela, os dois católicos, uma saída do governo em condições de dignidade e segurança. Dois anos antes do fim do seu consulado fizera condecorar Nogueira com a alta distinção da grã-cruz da Ordem da Torre e Espada, em sessão em que idêntico grau honorífico foi atribuído a Marcelo Caetano, mas da Ordem de Santiago, tendo na ocasião o Presidente da República sublinhado por indicação de Salazar os méritos da prestação política de Nogueira e do contributo de Marcelo para... a investigação e cultura. Mais um sinal a apontar para sucessor quem insistiu em ver antes da operação cirúrgica que poderia ter posto fim à sua vida. Nogueira, responsável pela diplomacia, era reconhecida como defensor da visão integrista do império. Todavia, em sentido contrário a estes sinais, não se deve ignorar que Salazar sempre tentou a reaproximação ao seu ex-ministro da Presidência, responsável pelo II Plano de Fomento, a quem entregara durante três anos a condução do Conselho de Ministros para os Assuntos Económicos. Era frequente ouvi--lo referir a comprovada experiência política de Marcelo e por diversas vezes procedeu à nomeação, ou mandou endereçar convites, de pessoas da confiança pessoal daquele, cuja corrente oficiosa de apoio respeitava. Finalmente, o cardeal Cerejeira não se poupava a proclamar que o Presidente de Conselho reconhecia a conveniência de se valorizar politicamente a Escola de Coimbra, com expressa menção de Lumbrales. Talvez o leitor se venha a interessar por aprofundar o tema. Contudo, ao percorrer o labirinto de sinais contraditórios, deverá ter sempre presente que Salazar era manipulador, ambíguo e pragmático, evoluindo de acordo com as circunstâncias e gostando de confundir os interlocutores. Até Franco, que era um galego manhoso, se queixava de Salazar, a quem chamava Oliveira, ser ardiloso. Leite Pinto, prestigiado ex-ministro da Educação, que mantinha acesso fácil a S. Bento, comentou num almoço com o seu acutilante sentido de humor: "O Sr. Presidente do Conselho é um grande actor. Diria mesmo que é a Palmira Bastos [máxima estrela do elenco do D. Maria II] da cena política nacional." Foi com esse jogo de cintura que Salazar se manteve durante 40 anos à frente dos destinos de Portugal, controlando sucessivamente as forças e tendências em presença, num universo de monárquicos e republicanos, católicos e maçons, liberais e corporativistas, mantendo de lado os comunistas, que hostilizava, mas acolhendo no governo opositores em formação, indo buscar do melhor que ensinava nas faculdades mais prestigiadas ao tempo. Ora nos surge como um retrógrado conservador, como nos surpreende pela abertura aos modernos conceitos da teoria económica, sempre bem informado sobre o que se passava no mundo, surpreendendo quem recebia em audiência pelo grau desse conhecimento, bem como pelo cuidado que punha na forma de se exprimir, fosse em português, fosse em francês. Homem de diferentes épocas e diferenciadas atitudes. Albino dos Reis, que o conhecera bem, respondeu-me quando lhe perguntei o que pensava do ex-presidente do Conselho, entretanto falecido: a qual Salazar se refere? Afinal mais uma pergunta de difícil resposta.

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