Agora não

Carla Hilário Quevedo
i-online em 6 Jul 2013
Há falta de responsabilidade. Mas ela é partilhada por todos os que falam demasiado e os que se amedrontam
Os acontecimentos políticos da semana lembram dois aspectos importantes sobre a nossa vida pública. O primeiro é o de que sabemos muito pouco sobre o que se passa realmente em certos meios. A comunicação social também não ajuda neste momento. A verdade é que não sabe o suficiente sobre os acontecimentos, sobretudo quando se desenrolam com esta rapidez. A maioria dos comentadores também faz política, uns sabendo umas coisinhas do que se passa, outros ainda menos. Mas o conhecimento das coisas que importam, ou de uma certa verdade, se quiserem, nunca foi um privilégio da maioria. Toda a vida houve poucos que souberam, menos ainda os que assistiram, mas muitos, imensos, aqueles que repetiram histórias, interpretaram falsidades, espalharam rumores, etc.
Tenho pensado por estes dias nos últimos instantes de vida de Sócrates, a que terão assistido 15 pessoas. Platão, curiosamente, não foi uma delas (cf. Fédon, 59b). No texto mais importante de testemunho da civilização ocidental, quem escreveu não esteve lá. Há muito, portanto, que pouco se sabe e muito se fala. Podemos tirar duas conclusões daqui: fala pouco quem sabe, mas se aquele que sabe fala muito, devemos pensar que nos está a manipular. A confiança não é um dado adquirido, por isso não é errado desconfiar nestes casos.
O primeiro aspecto com que nos confrontámos nesta crise, que se pode resumir por "sabemos pouco sobre o que é decisivo", leva a um segundo, também aparentemente conhecido por todos, mas que nunca tinha aparecido com tanta clareza. Falo do termo "responsabilidade", usado e abusado nos últimos dias. Muito se tem dito por muitos que sabem pouco sobre a irresponsabilidade de Passos Coelho e de Paulo Portas em criar uma crise num momento delicado da nossa vida. Mas quando se pensava que o Bloco de Esquerda ia comer à colher as latas de sevruga que sobravam e que PS e PCP iam abrir as últimas garrafas de champanhe, primeiro com a demissão de Vítor Gaspar, logo seguida da de Paulo Portas, eis que o inesperado acontece. Tivemos a oposição aos gritos por causa da "irresponsabilidade" do governo. António José Seguro desapareceu de cena, quem sabe se a respirar para sacos de papel, José Gomes Ferreira, que durante meses apontou o dedo ao terrível Gaspar, apareceu aflitíssimo com a possibilidade de "irmos parar ao abismo", como se a vida até corresse mais ou menos bem há dois anos. Para cúmulo, Manuela Ferreira Leite introduziu a possibilidade sempre possível de estar tudo "pior do que pensamos", mas, surpresa!, que o governo se devia manter. Justiça seja feita a Constança Cunha e Sá e José Pacheco Pereira, que se mantiveram coerentes com as suas exigências. Não que a coerência seja uma virtude por si só, mas convém perceber que oposição é esta que pede demissões e eleições, mas que fica aterrorizada quando a realidade acede aos seus pedidos sucessivos.
Há, de facto, um problema de falta de responsabilidade. Mas ela é partilhada por todos os que falam demasiado sobre o que sabem e o que não sabem e pelos que se amedrontam no momento em que os seus sonhos pareciam estar prestes a ser realizados. Ficámos a saber que mentem, cada um à sua maneira.
Escreve ao sábado

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