A cortina e o espelho

JOÃO CÉSAR DAS NEVES
DN 2013-07-29

Nunca ninguém soube a causa, mas na manhã de 1 de Agosto de 2013 realizou-se o sonho de tantos de portugueses: subitamente faleceram todos os políticos nacionais, foi extinta a troika e até Angela Merkel se demitiu.
Os historiadores discutirão durante séculos esta incrível coincidência. No inexplicável desaparecimento da classe política falou-se em epidemia, nos bivalves contaminados das praias e suspeitou-se de terrorismo. A verdade é que quase todos os detentores de cargos públicos, ministros, deputados, magistrados e autarcas, bem como membros das comissões políticas dos dez maiores partidos nacionais foram encontrados mortos ou incapacitados. Os factos internacionais tiveram motivo independente, mas misteriosamente relacionado: a decisão do Tribunal Constitucional Alemão sobre a participação do Bundesbank no BCE levou à demissão de Merkel e suspensão dos programas de ajuda aos países endividados. Acabou a troika.
O significado desta brutal e inesperada cadeia de acontecimentos foi difícil de entender. Até porque na hecatombe morreram igualmente muitos analistas políticos e directores de informação. Mas até o Presidente da República e o professor Marcelo Rebelo de Sousa, miraculosamente poupados, estavam sem explicações ou conjecturas.
O que interessa é que nos vimos livres do mal. Abruptamente desapareceram os elementos a que a generalidade dos cidadãos atribui as origens da crise. Todos sabem que a classe política, além de ser uma vergonha, é a culpada da situação. Por outro lado, as nossas dificuldades económicas vêm unicamente da estúpida austeridade imposta do exterior. De repente a crise acabou.
Ou melhor, a crise foi finalmente olhada na sua verdadeira natureza. Levantada a cortina de fumo mediático, foi possível ver o que realmente interessa, e que discussões, falácias, mentiras e confusões do debate político ocultam. Aberto o pano de cena que cobria o drama nacional surgiu... um enorme espelho: a verdadeira crise somos nós. Ficou então evidente aquilo que com tanto esforço se ocultou durante tanto tempo: afinal o problema produtivo é culpa nossa; o dinheiro esbanjado dos políticos foi gasto connosco; a dívida é de todos. A política é ilusão, o povo é realidade.
Porque os problemas de produtividade e mercado das empresas portuguesas não se resolveram por desaparecer o memorando de entendimento. As despesas exageradas que ninguém quer pagar não se evaporaram com a morte dos que as assinaram. A dívida continuou exactamente como era, e repudiá-la teria as mesmas consequências de ostracização e reclusão do país que sempre teve. A solução da crise, com ou sem ministros e troika, passa, como sempre passou, por cada um mudar de hábitos, trabalhar mais, gastar menos. O resto é fantasia.
Portugal vive um clássico dilema: quer baixar o total de gastos sem reduzir as parcelas. Para iludir o duro ajuste confunde-se mensageiro e mensagem, tratamento e doença. Acusar os que anunciam os cortes de os ter causado ou condenar o FMI pelas dores da terapêutica é não entender a maleita. Aludir a desperdícios e roubos alheios é forma cómoda de evitar as responsabilidades próprias e as poupanças inevitáveis.
Aliás, esta enorme e insólita hecatombe política agravou ainda mais a crise. Não tanto por ausência de decisores e estratégia nacional, mas pela perda dos milhões da troika, a que ninguém deu atenção até faltarem.
O morticínio de 1 de Agosto revelou a Portugal que o mal não vem do Governo mas do país. Afinal a defunta classe dirigente não era estúpida, mentirosa ou corrupta e as organizações externas não nos querem conquistar ou explorar. A economia é que está mal. Descobriu-se de repente que, apesar dos seus muitos erros, políticos e troika eram, mais que causa, alívio da recessão. Os esforços de ministros e Europa, com muitos equívocos e enganos, iam no bom caminho, inevitavelmente doloroso.
Assim, no dia 2 de Agosto começou a lenta nomeação de novas autoridades e a renegociação de um acordo de estabilização. Para resolver a crise.

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