Nobreza de carácter e cidadania

Público, 08/07/2013

1. Uma das maiores dificuldades do exercício concreto da democracia política é a qualidade dos membros de uma sociedade que deseje ser ordenada democraticamente.
Votar é escolher e não podemos escolher com segurança e rigor, se não tivermos boa informação sobre o que está em causa: sistemas ideológicos e pessoas para os servirem.
Além de uma boa literacia que permita à pessoa fazer uma escolha informada, esta escolha é muito influenciada pelo carácter de quem vai votar. Será que a pessoa se vai determinar por motivos nobres, por critérios de justiça, por uma correta interpretação do que é o bem comum em confronto com os seus interesses pessoais?
É muito difícil saber. A solução pragmática para que o sistema democrático possa funcionar tem sido a de atribuir ao "número" um valor quase mágico, de modo que ganha quem tiver maior número de votos. Não há votos de qualidade, todos valem o mesmo aritmeticamente.
2. Esta realidade pode estar a contribuir para retirar às virtudes pessoais o valor que lhes era atribuído nas sociedades tradicionais. Na minha opinião, tal evolução não se justifica e devemos dar à sociedade sinais que mostrem que a generalidade dos cidadãos não a aprova.
Contudo, as pessoas são diferentes, irremediavelmente diferentes; e, no plano da convivência social, estas diferenças devem ser reconhecidas e aceites. Se estivermos a pensar em decisões ou atos que indiciam um carácter nobre que se manifesta por virtudes pessoais como a coragem, a dedicação voluntária - fora de qualquer obrigação profissional ou de dever familiar -, a generosidade de dar de si para os outros, até com risco de vida, a promoção da paz entre as pessoas e entre os países, e tantas outras decisões com a marca da nobreza de carácter, devemos estar disponíveis para honrar os que de tal forma se comportam.
3. Assim o compreendeu uma empresa que, usando a sua própria designação, Nobre, criou recentemente a Nobre Casa de Cidadania. Não é um edifício, é um espaço virtual no qual coincidem tão diversas instituições como o INEM e a Liga dos Bombeiros Portugueses, o Corpo Nacional de Escutas e a Faculdade de Teologia da UCP, o Estado-Maior General das Forças Armadas e a Fundação para a Ciência e a Tecnologia, a PSP, a Direção-Geral de Educação, a Autoridade Nacional para a Proteção Civil, entre outras instituições da sociedade civil como o Grupo de Reflexão e Apoio à Cidadania Empresarial e a Plataforma Portuguesa das ONG para o Desenvolvimento.
Estas entidades abrirão, simbolicamente, a porta da Nobre Casa de Cidadania àqueles cidadãos que quaisquer outros cidadãos proponham para a distinção, traduzida pela outorga do título de "Cidadão Nobre", por virtude de terem praticado um "ato nobre".
Trata-se de, na maior simplicidade que for possível, identificar, reconhecer, honrar e publicitar atos de nobreza moral praticados por pessoas comuns, de qualquer idade e em qualquer situação.
4. Ao publicitar estes atos nobres não se pretende envaidecer ninguém; mas estamos a soltar a mensagem de que é um benefício para a democracia que haja quem se decida a praticar as virtudes que antes enunciei. E que é bom para o exercício da cidadania que estes exemplos sejam honrados, distinguidos e amplamente publicitados. Para que possam suscitar, em muitos cidadãos, a vontade de os seguir.
Roubos, violações, homicídios e outras brutalidades cometidas por cidadãos são diariamente noticiadas em grandes títulos.
Chegou a hora de dar relevo noticioso aos atos nobres que tantos outros cidadãos praticam. A Nobre Casa de Cidadania vai dar o seu contributo para este objetivo e espera ser reconhecida.

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