Os bens que tenho e o bem que faço


José Luís Nunes Martins
ionline 2014.12.27

Se é tão pouco o que podemos viver e desfrutar, por que desejamos sempre tanto? É quase impossível apreciar o dinheiro e a vida ao mesmo tempo!

Existem várias carências. Uns estão privados de bens essenciais, outros, tendo muito mais que precisam, sentem um enorme vazio que chama por mais e mais luxos, numa insatisfação profunda e constante. Esta pobreza é maldosa, porque destrói a pessoa a partir de dentro. 
Não viver em carência é algo muito mais valioso do que qualquer tesouro material. É, pois, a atitude face ao que se tem, e ao que não se tem, que determina a verdadeira fortuna. 
Há quem se torne escravo das suas riquezas materiais, quem se faça miserável por causa dos muitos bens que possui, de tão dependente deles, de tão preocupado com a possibilidade de os perder... 
Na verdade, o dinheiro é um excelente meio das pessoas se revelarem. A alguns é mesmo de desejar que tenham sempre muito, a fim de que a sua miséria seja sempre evidente a todos! A pobreza não retira a dignidade a ninguém, mas a riqueza pode fazê-lo com facilidade. 
O maior perigo que corre alguém que se expõe a uma vida de luxos é que pode deixar de  apreciar as coisas simples da vida (que são as mais belas!). Torna-se difícil de agradar, mas, em vez de se entristecer por deixar de ser feliz com pouco, julga mesmo ser um dom, o de não se satisfazer senão com o melhor. 
O luxo apenas cria apetite de mais luxo. Trata-se de um desejo que, não sendo natural, é insaciável. O melhor é nunca o alimentar, pois apenas se fará maior e mais exigente. 
Quanto maior for uma casa ou uma fortuna, mais inquietação e cuidado exigem... é raro encontrar-se alguém satisfeito com o que tem. 
Começa por se preferirem coisas desnecessárias e em muito pouco tempo os pensamentos tornam-se escravos de uma espécie de gula emocional, onde o coração parece correr atrás de promessas de paz numa escalada de preços e requintes que é, na verdade, uma descida, uma queda... ao pior de si. Vamos perdendo a capacidade de reconhecermos o nosso valor, aquele que está antes e depois de qualquer posse. 
Investir toda a vida em lutar por mais do que aquilo que se necessita é uma perda de tempo e de vida, na medida em que se poderia (e deveria) utilizar esses recursos ao serviço das coisas simples da vida, aquelas que fazem a verdadeira felicidade. 
Devemos concentrarmo-nos no que temos, agradecer quando temos acesso ao essencial, e procurar que aquilo que excede as nossas necessidades possa chegar a quem dele precise. 
Um homem mais rico não é melhor que um mais pobre. Nem o contrário. Até porque quem tem mais, pode dar mais. Sendo que a quem é feliz, basta o necessário. 
Na verdade, a pobreza como a imaginam alguns ricos é muito pior que a pobreza real, onde, tantos pobres conseguem ser felizes... assim não lhes falte o básico. Alguns até com menos do que o mínimo se contentam... Ou somos senhores ou escravos das coisas... 
É possível viver num palácio sem se deixar corromper por isso. Há quem se sirva dos seus bens para ser uma bênção na vida dos outros, esse é rico, muito rico, no que importa. Fez-se feliz, por se ter feito pobre para que outros sejam ricos... fez-se rico, por ter sido capaz de dar tudo! 
Se é tão pouco o que podemos viver e desfrutar, por que desejamos sempre tanto? É quase impossível apreciar o dinheiro e a vida ao mesmo tempo! 
Quem sabe viver bem com pouco, sabe viver bem de qualquer forma. O pouco nunca é escasso. 
A verdadeira riqueza não resulta dos bens que tenho, mas antes do bem que faço. A liberdade mais profunda é passar do apego ao desprendimento. 

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