As caravelas de Costa e outros devaneios

Nos EUA há um nome pouco elogioso para os políticos sem coluna vertebral que mudam de opinião consoante consideram ser mais vantajoso no número de votos: flip-floppers. Por cá há outro: troca-tintas.

Chegámos a um ponto da vida política portuguesa em que devemos lamentar António Costa ter desaproveitado a sua adolescência na Juventude Socialista. Não, não é pela desconfiança que qualquer pessoa sensata tem de alguém que praticamente nada na vida profissional fez além de política (o que é muito mau em si mesmo e nos garante que Costa não tem a mínima noção do mundo fora das tricas partidárias e dos abundantes orçamentos para que outros contribuíram). É mesmo porque a adolescência é o tempo certo para os excessos e os extremismos, quando ainda temos uma vida inteira para arrepiar caminho. Fora da Juventude Socialista, Costa poderia ter-se entregue a uma verdadeira juventude revolucionária e amante do comunismo. Assim, seríamos poupados agora à deriva proto marxista que Costa trouxe ao PS.
É certo que Costa e o seu enlevo da meia idade com o comunismo é um bom entretenimento no Portugal pós-troika e nós rimo-nos em abundância. Mas faz-nos ficar desassossegados – e planear tirar as poupanças do país se Costa tiver possibilidades de vir a governar como sonha. Porque mesmo com a viragem à direita que inevitavelmente ocorrerá, se Costa teimar em uma ou duas das suas políticas da esquerda trovejante, só para virar à direita em tudo o resto sem pesos na consciência, essas uma ou duas poderão – tal o demónio disparatado que tem possuído Costa – ser mortais.
Há uns dias enrolaram-se na questão do coeficiente familiar e na imaginária regressividade fiscal. Para Costa, o Vermelho, manter a progressividade de um imposto é introduzir regressividade. Para Costa, presumo, tudo o que não seja retirar aos geradores de maiores rendimentos todo o rendimento que geram acima de (sejamos caridosos) o rendimento médio é regressividade fiscal. Vamos esperar, a bem da coerência (se Costa estiver familiarizado com o conceito), que o coeficiente conjugal seja abolido – porque tem exatamente a mesma lógica do coeficiente familiar.
E como presente de Natal tivemos a referência às caravelas dos Descobrimentos, tão fundamentais como atualmente a TAP pública.
Confesso, no entanto, a limitação que notei em mim perante tão brilhante evocação histórica e que o amável leitor talvez partilhe: não entendi por que razão os aviões não são também fundamentais se privados. E além de mim e, porventura, do amável leitor, houve muito quem concordasse connosco. Por exemplo Jorge Coelho, que no início de 2001 previa privatizar a TAP nesse ano. António Costa era colega de governo de Coelho e não se lhe conhecem reparos à ideia que agora reputa de tão disparatada e contrária aos desígnios nacionais. Ou Teixeira dos Santos e Sócrates, que previam privatizar a TAP em 2010 e que colocaram a privatização da TAP no PEC4, esse documento salvífico (segundo a narrativa atual do PS) que nos teria evitado o resgate da troika e, claro, teria fugido (quiçá por intervenção divina, já que se avizinha o Natal) ao destino dos PEC 1 a 3. Costa foi apoiante incondicional deste governo e não consta que tenha vociferado contra a privatização da TAP.
Nos Estados Unidos há um nome pouco elogioso para os políticos sem princípios nem coluna vertebral que mudam de opinião consoante consideram ser mais vantajoso na bitola do número de votos: flip-floppers. Por cá há outro: troca-tintas.
Mas regressemos às caravelas. É que como atualmente os interesses nacionais poderiam ser defendidos com uma TAP privada (garantindo-se contratualmente, por exemplo, voos para os arquipélagos de forma a assegurar a unidade territorial), também as bonitas e versáteis caravelas podiam perfeitamente ter sido privadas (assim houvesse capital).
Costa não sabe – ou conta que os eleitores não saibam – mas outros países europeus apostaram na expansão e no comércio por rotas marítimas. E – dêem sais aromáticos a Costa – fizeram-no através da iniciativa privada.
A VOC holandesa e a East India Company britânica eram companhias privadas que criaram impérios na Ásia, para onde mandavam os seus garbosos navios privados. A Índia colonial, administrada diretamente pelo governo britânico, surgiu só em 1857 com a Revolta dos Cipaios, que terminou com a PPP do império mogol e da EIC.
E foram estas malévolas VOC e EIC privadas que tornaram irrisória (aqui pela bitola territorial) a presença portuguesa na Ásia. Isso: duas companhias privadas escorraçaram da Ásia a iniciativa estatal portuguesa. (E façamos o favor de não culpar uma suposta idade das trevas filipina, que cada vez mais se sabe ter tido pouca penumbra ou trevas.)
Em suma: se António Costa quer evocar a História, pelo menos que aprenda algo com ela. (Mas com aprendizagens de Costa estou como Tomé: tenho de ver para crer.) A saber: nestas histórias da globalização, não é a primeira vez que empresas privadas florescem onde as iniciativas públicas sucumbem. No caso britânico, foi a privada e capitalista EIC que deu à Rainha Vitória e ao império a joia da Coroa.

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