Neste Natal, adopte um Cristo!

P. GONÇALO PORTOCARRERO DE ALMADA
Voz da Verdade, 2014.12.21

É da doutrina católica que todos os fiéis são, de algum modo, outros Cristos, mas, sem querer plagiar George Orwell, a verdade é que, não obstante a igual dignidade de todos os fiéis e o seu também universal chamamento à santidade e ao apostolado na Igreja, alguns o são mais do que outros.
Pelo Baptismo adquire-se uma verdadeira e real configuração com Nosso Senhor, ou seja, uma autêntica participação na sua filiação divina. Contudo, o sacramento da ordem habilita o fiel para ser não apenas outro Cristo, mas o mesmo Cristo, na medida em que, por efeito dessa graça, adquire a capacidade de agir em nome de Jesus, isto é, como se fosse Ele próprio. Por isso, quando um presbítero consagra o pão e o vinho, transformando-os, respectivamente, no Corpo e Sangue de Deus, ou perdoa os pecados, proferindo a fórmula da absolvição sacramental, não o faz em seu nome pessoal, em cujo caso nada aconteceria, mas enquanto é, nesse acto, Cristo, a quem não só representa como também personaliza.
Na Igreja, entende-se o sacerdócio ministerial como uma especial presença de Cristo. Por razão dessa singularíssima representação, os sacerdotes entregam a Cristo o seu corpo e a sua alma, para que a humanidade deles, na modalidade que foi também assumida pelo Verbo na sua encarnação, continue a ser instrumento da missão salvífica. Por esta sua peculiar identificação com Cristo, que define a sua identidade sacerdotal, são também chamados a viver em celibato, como Aquele que foi e é perfeito Deus e perfeito homem. Mas o celibato não tem por que ser sinónimo de solidão.
Os leigos casados constituem um lar, mas os presbíteros católicos estão, por assim dizer, «casados» com a Igreja que, embora seja também familiar, não é contudo uma família em sentido estrito. Os sacerdotes que vivem em comunidade, numa ordem religiosa ou numa instituição similar, contam com a ajuda dos seus confrades, mas os que vivem sós não têm, não obstante a fraternidade sacerdotal do presbitério a que pertencem, quem os apoie, não apenas nalguma urgência de carácter grave e excepcional, mas sobretudo no que respeita às mais prosaicas necessidades do dia a dia.
Em tempos passados, era comum que uma irmã, ou familiar próxima do sacerdote, o acompanhasse com uma disponibilidade total. Hoje em dia, a grande maioria dos clérigos seculares carece de uma presença familiar que o possa amparar: uma dolorosa ausência que até é perceptível quando, pelo seu aspecto, indiciam algum desleixo pessoal. Nota-se que lhes falta um ambiente familiar que seja, sem lhes criar uma dependências excessiva, um espaço de amizade e descontracção; que não têm quem, com a devida descrição, os possa corrigir e ajudar; quem se interesse, sem intromissões abusivas, pela sua saúde e alimentação; quem zele, com solícita atenção, pela sua apresentação; quem lhes facilite, uma vez por outra, alguma diversão adequada à condição sacerdotal; quem dê um toque de alegria e de graça às suas casas, etc. Nota-se que lhes falta, em poucas palavras, uma família cristã!
É verdade que Jesus nasceu na maior pobreza e que, se o padre é, por força do seu baptismo e ordenação sacerdotal, o mesmo Cristo, deve reproduzir na sua vida a exigência da vida do divino Mestre. Mas a Jesus não lhe faltou, nem sequer nas tão penosas circunstâncias do seu nascimento, o consolo de uma família, pois pôde contar com a presença varonil de São José e a ternura feminina de Nossa Senhora.
Para este Natal, vou pedir ao Menino Jesus um presente especial: que haja muitas famílias cristãs que O queiram adoptar, na pessoa de algum padre que esteja humanamente mais só.

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