PS levou o País à ruína três vezes em 40 anos"

Janete Frazão / João Pereira Coutinho
CM 2011-04-16
O sociólogo e historiador acredita que José Sócrates ainda pode sair vitorioso das próximas eleições legislativas. Isto, apesar de o primeiro-ministro demissionário, segundo defende, ter mentido “todos os dias e com todos os dentes que tem na boca”.
Correio da Manhã - Em tempos, afirmou que o pedido de ajuda externa poderia introduzir "alguma racionalidade" no País. Mantém esta posição optimista?
Manuel Villaverde Cabral - Mantenho e acho que já devíamos ter feito há muito mais tempo. O pacote é sempre o mesmo, o problema é aplicá-lo e, evidentemente, com equidade. E acho que hoje a única coisa que resta a uma esquerda que tenha vergonha na cara é manter a equidade na reestruturação enorme que tem de ser feita.
- Quais as consequências sociais e económicas que prevê desta ajuda externa?
- As económicas são, desejavelmente, as de recriar condições para o investimento privado. Do ponto de vista social, é aí que entra equidade. Os cortes têm sido mínimos.
- Acha que ainda não temos muitas razões de queixa?
- Sente-se já no aumento dos impostos, onde aumentos como o imposto de transacções, como o IVA, evidentemente, a este nível, só pode produzir fuga ao imposto e, portanto, mergulho na economia subterrânea.
- Que herança é que José Sócrates (não digo, deixará ao País) deixará ao partido socialista?
- Vai depender muito do resultado eleitoral e dá-me a impressão que ele possa fazer um resultado eleitoral menos mau do que se prevê.
- Não acha isso perturbante?
- Acho.
- E que imagem é que essa possibilidade dá do País?
- Um País completamente dividido ideologicamente. Quando Sócrates precipita a sua demissão e abre a crise com o slogan ‘estou aqui para impedir o FMI de entrar' ele tem o apoio do PS. É o resultado de uma tendência que se tornou persistente da abstenção. Era expectável que numa situação dessas as pessoas quisessem votar mas as pessoas não acreditam no sistema. Os que ficam, os que são, mais do que politizados, partidarizados quase que clubisticamente, e que depois inventam ficções para os seus interesses - e a esquerda agora inventou, sobretudo o partido socialista, a ficção do FMI, como se o partido socialista não fosse o partido do FMI em Portugal, que levou o País à ruína três vezes em menos de 40 anos. Nas sondagens nota-se que o PS tem recuperado votos. E isso permite resultados surpreendentes.
- Acredita ser possível a reeleição de José Sócrates?
- Acho que é possível, que tenha mais 1% dos votos do que o PSD. E fica tudo estragado para sempre.
- Considera que José Sócrates faltou à verdade aos portugueses?
- Todos os dias, com todos os dentes que tem na boca.
- De qualquer forma tem defendido que o PSD não é uma alternativa?
- Não disse isso.
- Então Pedro Passos Coelho é uma alternativa?
- Os políticos são feitos pelos lugares. Quem conhecia José Sócrates há dez anos? Ninguém. No entanto ele já lá andava há décadas. Foi ministro do Ambiente. Foi secretário de Estado da Defesa do Consumidor. É uma pessoa que soube aliás encontrar onde fazer marca. Por exemplo a questão das energias sustentáveis é fascinante.
- Mas falemos do futuro, Passos Coelho é ou não uma alternativa?
- Mas deixe-me terminar. O custo dessas energias sustentáveis é insustentável, passo o trocadilho, e também faz parte da dívida, o que a gente paga à EDP. A Passos Coelho tem-lhe faltado efectivamente uma narrativa sólida, não só para o futuro, mas para o passado, para explicar o que é que se passou no País e o papel do PSD.
- A solução de Governo passa pelo PSD/CDS?
- Sou daqueles que pensam que mesmo que o PSD tivesse maioria absoluta deveria convidar o CDS.
- Não sairá o tiro pela culatra ao PSD com a escolha de Fernando Nobre?
- Não sei quem teve essa ideia brilhante.
- Está a ser irónico.
- Estou, estou, é uma afronta ao partido, obviamente. Fernando Nobre não percebe nada daquilo.
"OLIVEIRA MARTINS DEVIA PRESIDIR GOVERNO"
CM - Vamos imaginar que nas próximas eleições o PSD vence, mas não vence com maioria absoluta, nem sequer consegue maioria absoluta com o CDS. Qual deve ser, neste caso, o papel do Presidente da República?
- O mesmo que devia ter feito em 2009, que era chamar os partidos, dizer-lhes ‘meninos, acabou a brincadeira, Portugal precisa de um Governo minimamente estável com um ano ou dois ou três para gerir o pacote que vem aí, fazer do FMI um mal que vem por bem e peço-vos que apoiem um Governo que eu escolheria. Até sugiro o nome de uma pessoa que podia presidir.
- Quem?
- Uma pessoa que é o exemplo da modéstia, da verticalidade, da honestidade, da competência, uma pessoa pública, examinada todos os dias, a meio do meio do meio, um cristão de inclinação à esquerda.
- E quem é essa pessoa?
- Guilherme d'Oliveira Martins, por exemplo. Conhece as trapaças todas melhor do que ninguém.
- E acha que José Sócrates ia aceitar uma solução dessas?
- Provavelmente não.
- Então corremos sérios riscos de entrar numa situação de impasse e ingovernabilidade totais?
- Era desejável que uma parte significativa da população se apercebesse disso. Penso que os mais inteligentes, os mais qualificados, que são os do Bloco, já se aperceberam, e vão todos a correr para o PS, é a barreira perante a direita.
- Chegou a dizer em 2009 que Cavaco Silva era o único a pensar Portugal?
- É verdade, parecia-me.
- Enganou-se?
- Ele estava mais preocupado com a reeleição. É pena.
PERFIL
Manuel Villaverde Cabral, 70 anos, é natural dos Açores. Doutorado em História pela Universidade de Paris, é actualmente investigador coordenador jubilado do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, do qual foi vice-reitor. É ainda director do Instituto do Envelhecimento.

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