Islão e o futuro

DN 2011-04-04 João César das Neves
As revoltas no mundo árabe, que já derrubaram ditadores na Tunísia, no Egipto e na Líbia, são um facto central do nosso tempo. Ainda é cedo para avaliar o seu significado, mas isso só se conseguirá entendendo alguns elementos básicos.
O islão é uma das culturas mais fortes e resistentes da história, das poucas que se transplantaram. As tradições são em geral etnocêntricas, limitando-se ao povo que as concebeu. Existem muitos contactos, contágios e conquistas entre elas, mas nunca se exportam com sucesso para zonas diferentes, rapidamente perdendo identidade. A excepção, única cultura globalizada, é o cristianismo. Em menor grau, mas indiscutivelmente relevante, está o islamismo. Nascido no mundo árabe é hoje maioritário em zonas tão díspares como o Irão, a Indonésia, o Senegal, o Paquistão.
A recente epidemia de descontentamento político no Médio Oriente e Norte de África, com evidentes sintomas de contágio, pode ser decisiva para essa cultura. Ela é parte integrante de um processo muito mais longo, que, de alguma maneira, tem influenciado a situação mundial das últimas décadas.
As transformações da Idade Moderna, que resultaram na revolução industrial do século XVIII e no progresso económico que ela lançou, tiveram enorme impacto sobre todas as culturas tradicionais. Os últimos 200 anos viram desaparecer inúmeros hábitos, línguas, religiões e instituições, um pouco por todo o mundo. Aquelas que sobreviveram sofreram mudanças profundas, com múltiplos aspectos civilizacionais pulverizados, dos reis absolutos às aldeias isoladas.
O cristianismo, dominante na Europa que liderou a transformação, passou por períodos de terrível pressão, sempre anunciados como fatais. Hoje é evidente que resistiu e até se robusteceu; mas muitas vezes nas décadas passadas se desesperou do seu futuro. O islão está a passar por esse magno choque e, embora também seja óbvio que sobreviverá com sucesso, ainda tem etapas importantes a cumprir.
Apesar da sua flexibilidade e resistência, a fé muçulmana tem importantes obstáculos internos. Primeiro a sua relação com a política. Aquilo que Constantino fez ao cristianismo nasceu no islão com o próprio Maomé, que foi chefe militar. A separação entre Estado e religião, difícil em todo o lado, é pior aqui. Daí nasce uma tendência para resistir à mudança. É conhecido que o Império Otomano só aceitou a tipografia três séculos depois da Europa. O extremismo islâmico, em grande medida, constitui uma reacção às mudanças do progresso, que, pelo terrorismo, transformou este problema local numa ameaça global.
Onde conduzirá o episódio das recentes revoltas ninguém sabe, mas alguns erros devem ser rejeitados. A turbulência não significa de todo uma rejeição do credo e, se tem algum efeito religioso, é de reforçar a devoção. Não se vê o laicismo árabe que alguns laicistas europeus pretendem. O laicismo é uma religião recente e, por isso, ainda bastante fanática e arrogante. Apesar disso, com solidez cultural muito inferior à do islão.
Será a democracia compatível com a fé islâmica? Há cem anos a mesma pergunta era feita acerca da Igreja Católica e muitos respondiam na negativa. Hoje a questão é espúria. Aliás, existem já países islâmicos saudavelmente democráticos, como Turquia ou Indonésia. O problema não é a possibilidade da democracia, mas a real motivação destes movimentos concretos.
O problema, normal neste tipo de impulsos, é que todos concordam no repúdio, mas poucos se entendem no apoio. Nem os líderes dos processos parecem saber bem os próprios objectivos. Ainda não é evidente se a luta alterará o equilíbrio entre extremistas e moderados. Ambos pareceram apanhados de surpresa por algo que nasceu espontâneo.
Entretanto, o potencial de desequilíbrio e instabilidade pode revelar-se perigoso, não só para os países mas para o mundo. Mesmo que soubessem o que pretendem, não é evidente que saibam como lá chegar ou, pior, como percorrer esse caminho. O que não há dúvida é que se joga aqui a integração estável do islão no mundo futuro.
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