O teatro como esperança para a Humanidade

Isabel Teixeira da Mota
Aceprensa: 4 Abril 2011
"Calderón transforma a liturgia numa poética de sentidos, de relações. Passo a passo, vai desvendando e revelando qual a razão de ser de cada gesto e de cada palavra; a própria narrativa da Missa, porque é que é assim construída". É a partir deste núcleo que se percebe "Os Mistérios da Missa", auto-sacramental de Pedro Calderón de la Barca em cena no Convento dos Cardaes até 17 de Abril, numa reposição feita pelo Teatro do Ourives. O projecto, nascido da experiência da total generosidade, abre um novo trilho ao teatro nacional. O "ourives" é "alguém que trabalha o ouro e as pedras preciosas em pormenor. Da mesma forma, nós também queremos tratar as palavras, os gestos, as pessoas com a mesma delicadeza", como "esperança para a Humanidade". Uma conversa com o encenador Júlio Martín da Fonseca quando se assinala o dia mundial do teatro (26 de Março).
Que projecto é este do Teatro do Ourives?
O Teatro do Ourives (TEO) nasce de uma história de amizade, de uma paixão pelo teatro e de uma envolvência católica. Nasce numa associação católica, Vale de Acor, com sede em Almada, que trabalha na recuperação de pessoas com problemas de drogas e álcool. Nessa associação, dirigida pelo Padre Pedro Quintela, um grande apaixonado pelo teatro, trabalham dois actores profissionais que por razões de percurso deixaram a vida artística e se dedicaram a cem por cento ao projecto Vale de Acor.
O Júlio é um deles?
Não. São o José Nogueira Ramos e o José Simão. Fizeram o conservatório - fomos colegas -, trabalharam no Teatro Nacional, no Teatro de Cascais, e, há mais ou menos dez anos, deixaram tudo para se empenhar neste trabalho de acção social. Eu fui mantendo contacto com eles durante estes anos. Pontualmente, convidavam-me para fazer pequenos espectáculos, pequenas celebrações. Durante um ano e meio fiz trabalho voluntário na associação - teatro e expressão dramática na recuperação de toxicodependentes - e foi uma experiência humana muito rica. No ano passado, por ocasião da celebração do ano sacerdotal, o Padre Pedro Quintela falou comigo porque tinha vontade de fazer algo de uma outra envergadura para celebrar. Há uma actividade de 13 anos quase ininterrupta que é, digamos, o "pré-Teatro do Ourives". Eram carreiras muito curtas, dois, três espectáculos. Mas isto do teatro é uma coisa que fica.
Na sua actividade profissional dedica-se à vida artística?
Sim eu dou aulas. Dou formação e trabalho como actor e encenador.
Eu conhecia a peça Os Mistérios da Missa, de Calderón de la Barca, porque sou um apaixonado pela obra deste autor. Fiz A Vida é Sonho, uma das suas peças mais belas, com o teatro da Universidade Técnica numa encenação de Jorge Listopad, o fundador deste grupo de teatro universitário. Foi na Torre de Belém e a peça chamou-se "Segismundo na Torre de Belém". No ano 2000 fizemos, também com encenação de Jorge Listopad, no Teatro Municipal de Almada, O Príncipe Constante, cuja personagem principal é D. Fernando, o Infante Santo.
O ano 2000 foi um momento marcante porque foi então que a nossa relação começou a tornar-se mais próxima. Até que em 2010 eu propus Os Mistérios da Missa e começámos os ensaios.
Este percurso artístico acompanha o seu percurso de fé?
A minha formação é católica. A minha mãe é espanhola, de Málaga. É uma fé quase à flor da pele. Sempre estive ligado, desde muito jovem, a grupos católicos. E como comecei muito cedo também a fazer teatro, foram-se abrindo muitas portas. O teatro permite fazer pontes com diversos grupos, não só católicos, também com outros cristãos e pessoas de outras religiões.
Foi no decorrer dos ensaios de Os Mistérios da Missa, pelo prazer de estarmos juntos e pelo clima de partilha e de oração entre nós, que pensámos em dar um nome a este projecto. Surgiu a ideia do Teatro do Ourives.
Uma evocação de João Paulo II.
Sim, uma homenagem ao Papa que é uma figura que nos é muito cara e muito próxima, por ter sido, também ele, um apaixonado pelo teatro. Foi actor na sua juventude e escreveu teatro. O nome deve-se à sua peça mais conhecida, embora ele tenha outras: A Loja do Ourives. O TEO é, de certa forma, dedicado a ele.
O teatro é uma espécie de trabalho "de ourives"?
Sim. Também gostámos dessa ideia do ourives. Alguém que trabalha com metais preciosos de uma forma delicada, com atenção. Que trabalha o ouro e as pedras preciosas em pormenor. Da mesma forma, nós também queremos tratar as palavras, os gestos, as pessoas com a mesma delicadeza.
É isso que se vê no vosso trabalho. Como desenvolvem essa gentileza da voz e dos gestos no vosso teatro, fazendo peças tão tocantes?
Pelo facto de nos termos apaixonado por este nome do Teatro do Ourives e por esta figura de João Paulo II. E sobretudo pelo que "o ourives" representa. O ourives é Deus, é Cristo que nos trabalha.
O trabalho interior tem influência na expressão artística?
Sem dúvida. Qualquer artista tem sempre por detrás um pensamento, uma ideologia, uma filosofia, uma forma de estar na vida. A nós, o que nos anima é a fé que temos e que partilhamos.
Pode-se dizer que o TEO é um teatro para a evangelização da Cultura?
Sim, é uma presença na cultura contemporânea. Os nossos projectos partem deste núcleo vivencial da fé, mas pretendemos que sejam espectáculos para todo o público. Agora, se as pessoas de alguma forma são tocadas, ou se também perdem alguns estereótipos... Muitas vezes o que acontece é que é muito normal os grupos fazerem pequenos teatros para a festa de Natal da paróquia, que às vezes, do ponto de vista artístico, poderiam ter outro grau de exigência. O que nós gostaríamos com este projecto - que é para toda a gente - era mostrar que há coisas belas para dizer, que a mensagem cristã é uma mensagem contemporânea, intemporal, e que a podemos transmitir através do teatro.
Sobre os Mistérios da Missa: é uma peça que elucida o que é a Missa, é quase pedagógica. O que pode transmitir aos tempos de hoje?
A Missa é esta mensagem do Céu à Terra, diz a certa altura o Calderón. Uma das experiências mais belas que tivemos quando fizemos os Mistérios da Missa, foi, para além dos crentes, termos no público outros amigos nossos, artistas que não são crentes, que foram ver e foram tocados, justamente porque lhes foi explicada toda a simbologia, todo o significado dos gestos e das palavras de uma Missa. Houve alguém que disse que assistir aos Mistérios da Missa era como estar do outro lado da cortina. Ou seja: era, realmente, ver o que se passa.
E esta obra é magistral. Uma obra de grande meditatismo teatral e beleza. Calderón transforma a liturgia numa poética de sentidos, de relações. Passo a passo, vai desvendando e revelando qual a razão de ser de cada gesto e de cada palavra; a própria narrativa da Missa, porque é que é assim construída. Logo de início, a personagem de entrada chama-se Ignorância e, no fundo, representa-nos a todos nós. É alguém que, muitas vezes conhecendo, ou indo todos os domingos à Missa, contudo, não percebe o porquê. E a Ignorância é essa figura que entra e pergunta: "Mas ninguém me explica? Eu quero saber o que isso significa." E aparece então outra personagem, que é a Sabedoria. Elas vão acompanhar a peça, e são elas que vão explicando toda a lógica da Missa, o seu significado profundo. No decorrer, vamos percebendo que se trata da história de todo o Cristianismo. Desde Adão, o primeiro homem, a Moisés, João Baptista... Até Jesus: o grande momento em que confluem e se tocam o Céu e a Terra. Toda a humanidade é convidada a estar ao redor da mesma mesa e comungar da mesma beleza da Criação.
Nas suas escolhas de encenação e interpretação, procura muito a palavra e é despido de aparato cénico. Porquê?
São várias razões. É por sensibilidade, por gosto... E por falta de meios. E às vezes isso é bom. Pelo facto de termos poucos meios, de nos termos só a nós, o nosso corpo e a nossa voz... A Cristina Perloiro, que é designer de moda e a nossa figurinista, escolheu a partir de roupas contemporâneas: T-shirts, calças de ganga, enfim, roupas que cada um tem; e com estas roupas fez figurinos que se integram perfeitamente, que têm toda a dignidade e também a intemporalidade da própria peça. Quanto ao resto, partimos do corpo e da voz e começámos a ensaiar na igreja de São Tiago, em Almada, que é a sede da Associação Vale de Acor. E verificámos que a peça tinha de acontecer numa igreja, num espaço sagrado. Estreámos na Igreja do Castelo de Sesimbra, depois na Igreja dos Seminário de Almada, do Cristo Rei. E agora em Lisboa, na do Convento dos Cardaes, que é um espaço belíssimo e tem também uma história de teatro. Há uns anos representou-se lá Claudel, e Sermões do Padre António Vieira. Fazer ali também permite um grau de proximidade grande entre o público e os actores e os músicos, que tocam ao vivo violino e violoncelo.
O momento em que levam à cena a peça, procura acompanhar o tempo litúrgico?
De alguma forma, sim. Quando estreámos era Verão, e o final do ano sacerdotal; mas pensámos logo que teríamos de voltar a fazer. E este tempo da Quaresma e da Páscoa é ideal para a voltar a pôr em cena. Achamos importante marcar o tempo litúrgico com trabalhos artísticos de qualidade e propor essa oferta cultural.
Em Dezembro passado, estrearam Barioná, uma peça sobre a Natividade da autoria de Jean-Paul Sartre. Ficou impressionado com a adesão?
Muito. Foi uma surpresa. Tivemos de fazer mais espectáculos do que estava previsto. E só não continuámos porque todos nós temos outras actividades profissionais e já não era possível continuar. Pensamos repor Barioná no próximo Natal.
É uma peça controversa pela pessoa que a escreve, não lhe parece?
Eu fiz a tradução e a adaptação da peça, pois é muito mais extensa. Para me preparar, li O Século de Sartre, de Bernard Henry-Lévy, entre outras coisas. Ajudou-me muito a perceber como é que aquele homem tinha em algum momento escrito esta peça. E queria observá-lo de um ponto de vista distanciado da fé, num discurso cultural, filosófico: nisto, o Henri-Lévy foi um excelente companheiro de jornada.
Ao vermos a peça temos a tentação de querer indagar se Sartre foi mesmo sempre ateu, se se converteu nalgum momento. A peça remete-nos para o mistério da Encarnação de uma forma de tal modo lúcida que não diríamos que fora escrita e encenada por um ateu.
Ele conseguiu escrever um dos textos mais belos que conheço sobre o mistério da Natividade. No espectáculo, é Sara quem vê a Sagrada Família e é através do seu olhar que nos é transmitido o acontecimento. Eu achei que seria mais interessante ver através do olhar de Sara. Mas na peça original, é pelo narrador. Ele tocou o mistério como ninguém.
Como é que isso se explica?
Sartre teve uma formação cristã: a mãe era muito católica. Sente-se que conhece muito bem a alma feminina, conhece muito bem o amor da maternidade, e isso está presente na peça. Vê-se que amou muito a sua mãe. O pai era protestante, e o avô igualmente: tinha sido pastor protestante. Ou seja, o ADN dele é cristão. O que acontece é que era um homem exigente e muito crítico. E lendo-o percebemos que há muitos Sartre. Henri-Lévy conta que no funeral de Sartre coexistiu toda a gente, católicos, comunistas, anarquistas e outros. Foi alguém que realmente atravessou o século e nalgum momento tocou alguém. Isso é muito interessante na sua personalidade. Agora começa a ser conhecido que ao longo de toda a vida ele esteve sempre numa tensão, numa luta como a de Jacob e o Anjo - uma luta permanente com Deus, corpo-a-corpo.
E não podemos saber quem "venceu"...
No fim, ele aproximou-se muito de uma certa filosofia judaica. Mas esteve sempre neste diálogo muito íntimo com Deus.
Esta é uma mensagem forte para o homem contemporâneo?
A peça foi escrita num campo de prisioneiros onde ele conviveu com vários sacerdotes que também estavam presos. Desta experiência de partilha da mesma situação, resulta uma escrita onde se sente que existiu muito diálogo com aqueles sacerdotes. E isso possibilitou que surgisse esta obra-prima que é Barioná. Existem relatos de que houve companheiros de prisão que se converteram ao vê-la. A própria peça é um grande mistério. Foi um dos padres que pediu e obteve autorização para celebrarem a Missa da noite de Natal, o que à partida não seria autorizado. Não se sabe como foi possível. E foi aproveitando esta abertura que Sartre, que dava aulas de filosofia na prisão, se lembrou que se poderia fazer também uma outra celebração, que juntasse crentes e não crentes: por que não fazer teatro, como os mistérios medievais? Ele nunca antes tinha escrito teatro, depois escreverá outras peças: foi aqui também que surgiu a sua descoberta do teatro, por intermédio do qual, depois, também as suas ideias filosóficas vão ecoar mais. Barioná foi um momento de viragem na vida de Sartre.
O teatro pode ser uma expressão autêntica do conhecimento racional, filosófico, teológico?
No teatro dá-se voz à palavra - e por isso está muito próxima da vivência cristã -, a palavra faz-se carne. Há um mistério muito grande no teatro, daí essa íntima relação que o teatro sempre teve na nossa tradição ocidental, mas também na oriental, com a experiência religiosa e a espiritualidade. É muito especial e por isso toca a quem faz e a quem vê. A quem faz porque tem de mergulhar na palavra, tem de mergulhar nos sentidos.
Encontra outros autores de interesse para serem trabalhados? Falou há pouco de Paul Claudel.
A minha estreia foi com Claudel, no Teatro D. Maria II, com O Anúncio feito a Maria. É uma peça que gostaríamos de fazer. Não quer dizer que necessariamente tenhamos de representar autores católicos, ou cristãos. O repertório teatral é imenso. Interessam-nos sobretudo peças que nos toquem de um modo particular, por darem um lado de esperança à Humanidade. Neste tempo vai-se para temáticas que fazem parte da nossa vivência, mas que às vezes nos tiram a esperança. São desesperadas. Com o TEO, procuramos dar esperança, dar luz às pessoas. O nosso próximo projecto, depois dos Mistérios da Missa, é com Chesterton, e até há pouco não sabíamos que ele tinha escrito teatro. Mas há outros, como Tchekov, um homem de grande carinho e ternura pela alma humana. É um desafio dar a conhecer este autor de uma nova maneira. É também uma forma de aproximarmos a nossa fé de quem não é crente, porque o desafio é a unidade. Esta é a palavra-chave.
Há muito público para o teatro?
Neste momento, em Portugal, sim, e também muita gente a querer fazer teatro. Há uma enorme necessidade da presença humana. Por um lado, as pessoas já não querem ser meras espectadoras, e por outro querem experimentar a proximidade, ver o olhar, sentir a respiração.
Gabriel Marcel dizia que a personagem é o ser mais sincero que existe. Não tem nada escondido.
Sem dúvida. O teatro é um mistério relacional. A presença. Sentirmo-nos uns aos outros. Ter uma experiência do acto de criação. Há muita gente que fala, que comunica, mas poucas pessoas estabelecem relações. Acho que essa é outra palavra-chave, estabelecer relações, ouvir o outro. Descentrar, tirar o foco de nós e pormos o foco no outro. Esse é o mistério trinitário, de certa forma. São relações trinitárias que se estabelecem. Aí, entre essas duas pessoas, ou entre os actores e o público, e quando surge uma outra coisa que já não é os actores e o público: é essa relação que está entre eles. E é isso que no Teatro do Ourives procuramos.
Isabel Teixeira da Mota  

Comentários

Madalena Maymone disse…
Que bela entrevista. É raro ouvir falar de teatro, ou seja do que fôr, com esta humanidade e com esta fé cristã tão esclarecida e segura. è o chamado "politicamente incorrecto". Que bom.

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