Vulcões e conspirações

Público, 2010.0422 Pedro Lomba

No Verão de 2008 estive a viajar pela Islândia. Não atravessei toda a ilha, mas fui a boa parte do litoral (o interior, mesmo no Verão, é quase impenetrável). Para quem viu a Lua pelos olhos da NASA, é talvez o mais parecido que temos no planeta. Para quem sonha com Marte, também. Os 33 vulcões da Islândia, muitos deles ubíquas ameaças em estado de pousio, foram responsáveis por um terço da lava libertada no mundo. O Eyjafjallajokull, o tal que paralisou os céus e os aeroportos da Europa nos últimos dias, é apenas o último.

Andei pelo Norte e pelo Sul. Pela capital, Reiquejavique, ponto de história na saga da Guerra Fria, e pela segunda maior cidade, Akureyri, a norte, de onde se avista um dos magníficos fiordes do país e onde verifiquei como é que os islandeses ocupam as noites de sábado: pegam no carro e começam a ronda. Conduzem aos círculos, a 20 km por hora, enquanto vão bebendo e conversando entre eles.

Viajei antes da bancarrota do ano passado, pelo que não sei como está hoje o país de corpo e espírito. Os meus amigos islandeses dizem que está melhor, que tem recuperado parcialmente da lava da crise financeira. Mas é verdade que alguns deles são da direita islandesa, o que quer dizer (ou queria, antes da crise) desconfiança em relação à entrada da Islândia na União Europeia e uma certa glorificação das suas virtudes: tenacidade e independência.

Em 1955, Harold Laxness ganhou o Nobel da literatura por causa de um livro, Gente Independente, que fala de personagens, numa Islândia do princípio do século XX, que sonham com leite, árvores e carne e não encontram nem uma coisa nem outra. "Não existem árvores, comboios ou arquitectura. E os frutos e os vegetais não chegam para a saúde", disse, em 1936, o poeta inglês W.H. Auden, nas suas Cartas da Islândia.

É difícil pensar num país mais adverso para sobreviver do que a Islândia. É como se o ser humano não devesse simplesmente estar ali. A tudo o que lhes faltou desde sempre, ao gelo dos glaciares e ao isolamento, juntou-se o fogo dos vulcões, as tragédias naturais e, já agora, uma chuva daninha que eu não sabia que existia. Digo mais. Há países onde até pode chover com abundância mas onde a chuva cai com verticalidade, isto é, de cima para baixo, sem surpresas. A chuva islandesa não é isso. Castiga-nos obliquamente, parte de todas as direcções, chega-nos de todos os feitios e mistura-se com a ventania. Não há chapéu que nos proteja. O que há é o mesmo combate corpo a corpo que os islandeses têm há séculos com a natureza. Um combate que eles sabem que não podem ganhar mas de que nunca desistem.

E onde eu queria chegar era aqui. Chegaram as cinzas islandesas aos céus da Europa. Pararam os aviões. Houve prejuízos, transtornos, maçadas. Tudo factos aborrecidos mas, por enquanto, ainda da vida, não da morte.

Ora, se estiveram atentos nos últimos dias ao carrossel de opiniões sobre o vulcão islandês, sobre as suas causas e consequências, então puderam ler coisas destas: mais uma pandemia global, as mudanças climáticas, o degelo, o fim do mundo, a desordem do homem, a crise financeira, uma nova ordem mundial, a paranóia das companhias de aviação e, para nosso uso, a prova provada de que precisamos mesmo do TGV e de que temos de regressar ao transporte terrestre.

Ouço e leio estas opiniões e teorias e vejo que são poucos os que nos dizem: "Eu não sei nada."

E, no entanto, é isso mesmo. Nós não sabemos nada. Os islandeses estiveram sempre expostos à natureza, mas têm conseguido proteger-se. Nós, que nunca sofremos na pele como eles, poderíamos fazer um esforço por nos proteger de outra coisa: da credulidade, do excesso de opinião e da irracionalidade humana.
Jurista

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