Crime, pecado e cruz

DN20100408, MARIA JOSÉ NOGUEIRA PINTO
Os actos de pedofilia praticados por sacerdotes constituem um facto de extrema gravidade numa dupla dimensão. Sendo uma delas puramente humana, é compreensível que tais factos sejam objecto de uma discussão pública, enquanto crimes hediondos que jamais deveriam ficar sem castigo. Sem prejuízo das responsabilidades individuais apuradas, a Igreja, como organização hierarquizada que é, assume, aqui, uma responsabilidade institucional.
Mas, nesta dimensão que não questiono, espanta-me ver, pela primeira vez, um premeditado efeito de contaminação como se, subitamente, todos os sacerdotes fossem pedófilos ou potenciais pedófilos, como se qualquer benefício da dúvida ou presunção de inocência devesse ser recusada. É certo que os crimes, e este em particular, são graves de per si independentemente da sua frequência ou reincidência. Mas, comparando o número de mulheres e homens que no seio da Igreja abraçaram vocações religiosas e dedicam a sua vida, nos quatro cantos do mundo, ao trabalho pelos outros - muitas vezes em substituição dos poderes temporais, na satisfação das necessidades mais básicas daqueles que nada ou quase nada têm - com o número de sacerdotes que cometeram actos de pedofilia, apercebemo-nos de que este efeito de contaminação tem razões que vão muito além daquilo que está em discussão. São os sinais de um já habitual anticlericalismo militante prosseguido por aqueles que, não acreditando em nada, pretendem que os que acreditam se sintam marginalizados e estigmatizados.
Bento XVI assumiu o escândalo, na sua extensão e gravidade, sem nenhuma hesitação. A Igreja sabe, melhor do que qualquer outra instituição, que não pode ser ocultadora nem de crimes nem de pecados. A Igreja sabe que as piores ameaças à sua integridade são aquelas que se geram no seu interior, porque ela não é apenas um corpo hierarquizado, é um Corpo Místico, e nessa medida um corpo dual: Cidade de Deus peregrina na Cidade dos Homens, ela é santa e pecadora.
E esta é a outra dimensão. O que não significa que o juízo deva, ou possa, ser mais brando. Pelo contrário, a pedofilia é um pecado gravíssimo e sê-lo-á sempre sejam quais forem as leis dos homens: no atentado ao pudor e na irremediável humilhação do mais fraco e indefeso, no abuso do poder e no triunfo do mal. Significa, sim, um claro conhecimento do mal como corolário do claro conhecimento do bem. Ao contrário da moral laica que caminha aceleradamente para um relativismo neutralizante da própria consciência social, a Igreja não pode vacilar nesta distinção.
Quando Cristo chamou Pedro para fundar a sua Igreja já sabia que ele o iria negar três vezes, dominado pelo medo e pela cobardia, precisamente naquelas horas trágicas que precederam a Sua crucificação e morte. Esta Igreja, feita por homens, assumiu desde o primeiro momento a própria condição humana, as suas contradições e a permanente dialéctica entre o bem e o mal. Ao longo de dois mil anos, apesar de muitos erros, de muitos momentos sombrios, cresceu, espalhou-se pelo mundo, levou a Boa Nova, evangelizou, cuidou dos mais fracos e dos mais pobres, enfrentou os poderes deste mundo, fortaleceu-se quando perseguida e condenada ao silêncio, deixou correr o seu sangue na defesa da verdade. É este o sentido da redenção.
Porque a Igreja é tudo isto, neste ano de 2010, Ano Sacerdotal, cabe-nos intensificar, com renovada humildade, esta prece tão necessária: "Senhor, vós lhes confiastes uma missão: que as vossas virtudes vivam neles e que perante todos se apresentem como vossas testemunhas."

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