O que não se diz

JOÃO CÉSAR DAS NEVES DN 20 maio 2015

Em tempos conturbados florescem ideologias. O mundo hoje vive uma mudança acelerada, com desenvolvimentos espantosos e possibilidades desconhecidas. Chamamos "crise" ao nascimento de um mundo novo. Infelizmente, as dores de parto levam ao repúdio do inevitável.
A generalidade das opiniões acerca da conjuntura não fala de futuro, mas de culpas. Analisar a evolução, compreender os problemas e determinar a abordagem é exigente, trabalhoso, complexo. Muito mais fácil e gratificante é enunciar apreciações dogmáticas, trocadilhos retóricos ou acusações morais, que parecem fundamentadas, mas desviam e evitam a questão. Ignoram-se as novidades preferindo-se descrever obsessivamente as supostas asneiras do governo, Alemanha ou FMI e os vícios das terríveis doutrinas neoliberais ou keynesianas. Assim se omite a realidade. A atitude é como se alguém, esquecendo os avanços da medicina, atribuísse todas as doenças a falhas médicas e terapêuticas erradas.
Uma ideologia não é erro ou capricho, mas algo indispensável, pois não podemos enfrentar o mundo sem critérios. O mal está, não na doutrina, mas na sua absolutização, que leva a esquecer a presença da realidade e a validade das alternativas. Ter um modelo de pensamento é imprescindível, mas ele deve ser continuamente testado na evolução da existência, única referência decisiva, sobretudo em alturas de clivagem. Por outro lado nunca podemos esquecer que os adversários, precisamente por o serem, têm sempre muito a ensinar-nos.
Tempos de transformação e mudança afectam os interesses e hábitos estabelecidos. Por isso os movimentos ideológicos ganham maior relevância, afogando a sabedoria e o conhecimento. Não interessa o que acontece, mas os erros dos que lidam com o que acontece. Em vez de debater progresso, tecnologias e novidades, denunciam-se corruptos e especuladores, políticos e empresários. Troca-se a procura de novas possibilidades e produtividades pela invocação de direitos adquiridos e preconceitos caducos. Entretanto o mundo passa ao lado.
A cada momento ouvimos vítimas da crise explicar o seu sofrimento pela maldade ou estupidez dos dirigentes, sem procurar sequer entender o que realmente aconteceu. Pode ser compreensível, mas é negativo e ocioso. Prefere-se a ignorância indignada ao conhecimento da evolução. Não interessam as novas dinâmicas, só as antigas queixas.
Nessas alturas uma análise serena e ponderada dos acontecimentos é repudiada com violência e, paradoxalmente, acusada de ideologia. Porque a forma mais simples de calar o importuno é apelidá-lo de neoliberal, comunista, extremista, reacionário ou qualquer coisa que nos dispense de considerar com atenção os seus argu-mentos. Apresentar um raciocínio, descrever um problema, formular uma conclusão dá muito trabalho, obriga a pensar e procurar uma resposta substancial. É mais barato descartar a elaboração rotulando o maçador. Em vez de um estudo compõe-se uma epopeia; no lugar de fundamentos jorram rapsódias, até afogar a discussão.
Implícita está a hipótese de que nunca um neoliberal ou comunista podem dizer algo de valor, que é impossível um extremista ou reacionário ter razão. Claro que, se explicitada, esta tese surgiria logo como a tolice evidente que é. Mas ela nunca chega à conversa, ficando escondida atrás do floreado de comparações e exemplos, condenações e juízos, todos aparentemente esmagadores, mas sempre desviados do cerne da questão e dos termos concretos da realidade.
Outro elemento da polémica bombástica é o fascínio de pôr o dedo na ferida, atirar pedradas ao charco e acusar o rei nu. Isso até parece realista e há quem julgue salvar o país só por o fazer, afastando-se mais um pouco das questões relevantes do momento. Porque esse tipo de actividade só seria útil nos casos raríssimos de cegueira colectiva, pois normalmente as chagas doem, os charcos vêem-se e um nudista ressalta. Mas, como do alto da sua ideologia, o doutrinador se considera genial perante um mundo de corruptos especuladores, não admira que ache mesmo ser o único a descobrir a anomalia que julga denunciar. Também aqui domina a preguiça e oportunismo, pois é muito mais simples pisar a úlcera do que curá-la, apedrejar de longe do que drenar o pântano, acusar o cortejo do que governar o reino. Pior, os dedos só infectam, as pedras bloqueiam, os insultos irritam sem nada resolverem.
Vivemos um tempo maravilhoso, que modificará o mundo para sempre. A evolução não pára e, queiramos ou não, nela viveremos. Todos o sabem, mas não é disso que se fala.

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