Um perfeito político
ALBERTO GONÇALVES
DN 08 março 2015
Um político, e para cúmulo um político particularmente zeloso face às obrigações dos contribuintes, deve acumular um currículo de desleixos fiscais? Talvez não. Haverá políticos imaculados nesta matéria ou em matérias mais graves, do mero arranjinho à pura corrupção? Dificilmente. Será saudável que os delitos e os eventuais crimes cometidos pelos políticos na vida "privada" ou "pública" (se quiserem, depois discutimos subtilezas) tenham consequências? Não duvido. Convém escrutinar previamente a seriedade dos políticos? Com certeza. Estamos preparados para dispensá-los a todos? A tentação é responder. "E depressa, por favor!". Mas a realidade impõe cautela.
Pedro Passos Coelho não se explicou com particular clareza na história dos atrasos à Segurança Social e ao IRS. Porém, acertou se calhar inadvertidamente em cheio quando jurou não ter, "ao contrário de outros", usado o cargo para enriquecer. De facto, há que separar os pecadilhos cometidos por quem não espera mandar nisto e os esquemas elaborados por quem manda. E não se trata apenas da dimensão das falhas: terríveis ou minúsculos, os deslizes que regressam para prejudicar os senhores no poder não são comparáveis aos deslizes que advêm desse mesmo poder e beneficiam os respectivos titulares. A imprevidência não é igual ao abuso.
José Sócrates, que enfiou o barrete com esplendor, está detido por suspeita, presumivelmente fundada, de artimanhas complicadas e decorrentes de funções governativas - não por assinar belas moradias na Beira Interior ou concluir licenciaturas ao domingo. Espertezas destas não são um achado jornalístico: são a regra no "meio", aliás confirmada nas notícias que de imediato se espalharam sobre a lisura cívica dos que implícita ou explicitamente desataram a pedir a cabeça do primeiro-ministro, do Dr. Costa (alegadas trapalhadas na sisa) ao Sr. Alegre (reforma de três mil euros por três meses na RDP).
É evidente que Pedro Passos Coelho não sai beatificado do episódio, que no mínimo mostra tiques de incoerência, alguma presunção de impunidade e, indirectamente, uma carreira profissional típica, na órbita dos partidos, do Estado e dos interesses dos partidos no Estado. Sucede que, nos desgraçados tempos que correm, estes defeitos constituem as virtudes possíveis de um político. A alternativa é quase sempre pior. Do que se sabe até agora, os "crimes" de Pedro Passos Coelho não diferem dos perpetrados por inúmeros cidadãos comuns. Se daqui em diante não se vier a saber mais, exigir a demissão do homem e condenar, a título de "populista", uma lei contra o enriquecimento ilícito não é só ridículo: é certificar o óbito da classe política em peso, proeza menos sensata do que parece. Afinal, é necessário existir alguém que nos obrigue a pagar impostos, ainda que fora de horas.
Um político, e para cúmulo um político particularmente zeloso face às obrigações dos contribuintes, deve acumular um currículo de desleixos fiscais? Talvez não. Haverá políticos imaculados nesta matéria ou em matérias mais graves, do mero arranjinho à pura corrupção? Dificilmente. Será saudável que os delitos e os eventuais crimes cometidos pelos políticos na vida "privada" ou "pública" (se quiserem, depois discutimos subtilezas) tenham consequências? Não duvido. Convém escrutinar previamente a seriedade dos políticos? Com certeza. Estamos preparados para dispensá-los a todos? A tentação é responder. "E depressa, por favor!". Mas a realidade impõe cautela.
Pedro Passos Coelho não se explicou com particular clareza na história dos atrasos à Segurança Social e ao IRS. Porém, acertou se calhar inadvertidamente em cheio quando jurou não ter, "ao contrário de outros", usado o cargo para enriquecer. De facto, há que separar os pecadilhos cometidos por quem não espera mandar nisto e os esquemas elaborados por quem manda. E não se trata apenas da dimensão das falhas: terríveis ou minúsculos, os deslizes que regressam para prejudicar os senhores no poder não são comparáveis aos deslizes que advêm desse mesmo poder e beneficiam os respectivos titulares. A imprevidência não é igual ao abuso.
José Sócrates, que enfiou o barrete com esplendor, está detido por suspeita, presumivelmente fundada, de artimanhas complicadas e decorrentes de funções governativas - não por assinar belas moradias na Beira Interior ou concluir licenciaturas ao domingo. Espertezas destas não são um achado jornalístico: são a regra no "meio", aliás confirmada nas notícias que de imediato se espalharam sobre a lisura cívica dos que implícita ou explicitamente desataram a pedir a cabeça do primeiro-ministro, do Dr. Costa (alegadas trapalhadas na sisa) ao Sr. Alegre (reforma de três mil euros por três meses na RDP).
É evidente que Pedro Passos Coelho não sai beatificado do episódio, que no mínimo mostra tiques de incoerência, alguma presunção de impunidade e, indirectamente, uma carreira profissional típica, na órbita dos partidos, do Estado e dos interesses dos partidos no Estado. Sucede que, nos desgraçados tempos que correm, estes defeitos constituem as virtudes possíveis de um político. A alternativa é quase sempre pior. Do que se sabe até agora, os "crimes" de Pedro Passos Coelho não diferem dos perpetrados por inúmeros cidadãos comuns. Se daqui em diante não se vier a saber mais, exigir a demissão do homem e condenar, a título de "populista", uma lei contra o enriquecimento ilícito não é só ridículo: é certificar o óbito da classe política em peso, proeza menos sensata do que parece. Afinal, é necessário existir alguém que nos obrigue a pagar impostos, ainda que fora de horas.
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