A impotência da Esquerda radical

Público 2012-08-16
M. Fátima Bonifácio

A Esquerda persiste na recusa ideológica em operar com o conceito de "natureza humana"

Não há nada como ler analistas ainda que só tenuemente esquerdizantes para perceber por que motivo a Esquerda radical, mesmo prometendo arrasar o "capitalismo de casino", aniquilar os especuladores financeiros, abater os ricos e instaurar o paraíso terrestre, não consegue demover os eleitores a entregar-lhe o poder. Essa incapacidade radica, no essencial, no esquecimento da história e, talvez sobretudo, na recusa ideológica em operar com o conceito de "natureza humana" ou, pelo menos - caso o conceito seja mesmo repugnante -, na recusa em atender às "profundezas antropológicas" (Edgar Morin) de certos comportamentos humanos.

Por que será que a malta não vota em massa no Louçã e no Jerónimo? Em finais dos anos trinta do século passado, já chegava à Europa muita informação sobre os milhões de mortos que custava a edificação do socialismo na União Soviética. A ascensão do fascismo impediu a intelligentsia ocidental de denunciar os crimes cometidos na pátria dos trabalhadores; e depois, o papel da URSS na derrota do nazismo e, subsequentemente, a Guerra Fria continuaram a justificar o silêncio com que muita gente, com a típica boa consciência da Esquerda, persistia em encobrir os horrores do estalinismo, porque era imperioso não fornecer argumentos à Direita e porque o Terror fora um erro acidental, que futuras experiências socialistas certamente suprimiriam. A partir de 1964, Brezhnev estabilizou com mão-de-ferro um regime ditatorial assente numa polícia política feroz (KGB) e numa Censura implacável. A União Soviética colocou um homem na Lua, abeirou-se do milagre económico com os seus portentosos programas quinquenais, e eliminou alguns aspectos mais escabrosos do estalinismo. A exegese dos textos fundadores do marxismo-leninismo continuou a fornecer a milhares de intelectuais europeus (e até americanos) matéria para apaixonados debates: houve amigos que se zangaram.

Entretanto, o mundo ocidental desenvolvia-se e enriquecia, experimentando depois da II Guerra Mundial, e até à crise do petróleo de 1973, as mais elevadas taxas de crescimento económico da sua história. Da moda à música e à exploração espacial, todas as indústrias, pesadas e ligeiras, registaram um desenvolvimento espectacular. As cidades europeias encheram-se de lojas, enormes armazéns e inúmeros supermercados com prateleiras a abarrotar dos mais variados produtos. Num mundo já dominado pela radiodifusão e pela televisão, a imagem de uma Europa colorida, livre, abastada, transpôs a Cortina de Ferro, e começou a despertar sonhos para os lados de Leste. Nestas sociedades, pobres e taciturnas, os Beatles conquistaram uma audiência apaixonada e impuseram-se como um ícone. O Ocidente tornou-se cada vez mais um fruto apetecido, gerando desejos e expectativas que o socialismo não podia satisfazer. Quando chegou Gorbachev mais a sua perestroika, a sociedade russa estava madura para uma mudança radical, abraçando a liberdade segundo o modelo do Ocidente. O "Fim da História", embora se revelasse provisório e ilusório, legou contudo uma consequência duradoira, que chega aos nossos dias: o total descrédito dos métodos revolucionários como meio para impulsionar o progresso, e a radical desmitificação do regime comunista, clamorosamente naufragado no meio da sua torpeza e ineficácia. Não admira que só franjas martirizadas pela frustração se mostrem entusiasmadas com os cacos deste regime que Louçã e Jerónimo têm para oferecer a Portugal.

O comunismo, enjeitado por aqueles mesmos que o viveram, não se recomenda a sociedades livres, habituadas à concorrência, conformadas com a existência de ricos, pobres e remediados, em que a vasta maioria das pessoas encara as promessas de igualdade social como histórias para adormecer. As nossas sociedades, tal como aquelas que foram penosamente emergindo do colapso da União Soviética e como todas em que reina um módico de liberdade, são sociedades compostas de indivíduos ávidos de consumo, que se tornou na principal, senão única, paixão contemporânea, exacerbada pela globalização. Garantidos os pilares essenciais do Estado Social, Educação e Saúde, as pessoas votam em quem lhes prometer maior acesso a plasmas, casas, automóveis, iPad’s e viagens por paragens tropicais; por quem lhes garanta a posse de um maior número de bens, materiais ou simbólicos. Está na natureza dos homens, que a Esquerda encara erradamente como um produto transitório de um sistema social defeituoso. Quando em 1884 Engels presenteia a Humanidade com A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, remete-nos para um mundo angélico, com criaturas a viverem felizes numa sociedade livre da praga do individualismo, em que tudo era comunitário. Apenas não nos explica como e porquê surgiram então energúmenos movidos pela ideia tenebrosa de se apropriarem do que era colectivo, secundados por outros indivíduos que se apressaram a imitá-los. Engels não explica, em suma, a origem da propriedade privada uma vez que, excluindo o factor natureza humana, fica sem instrumentos conceptuais que permitam esclarecer por que motivos as idílicas comunidades primitivas não resistiram à cupidez do Homem. Muito mais proveitosa é a este respeito a leitura de Locke, que em lugar de um tipo humano ideal e inexistente, se ocupa do pequeno homem industrioso, aplicado a ganhar a vida o melhor possível, dentro do respeito pelas leis.

Enquanto a Esquerda não submeter a uma crítica radical os vários socialismos reais que conhecemos - e não há senão socialismos reais; enquanto não reexaminar os pressupostos ontológicos do seu entendimento da sociedade, poderá seduzir uma minoria de incautos bem intencionados, mas não chegará ao poder - a não ser numa circunstância absolutamente extraordinária e totalmente imprevisível.

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