Estamos a educar pequenos independentistas

CATARINA ALMEIDA      BLOG  FUNDAÇÃO MARIA ULRICH          26.10.2017



Estamos no meio de uma certa confusão. Ingleses a querer sair da Europa, catalães a querer sair de Espanha, homens e mulheres a quererem sair do seu corpo e, pior que isso, pessoas que se dividem entre “a favor” e “contra”. Tenho dado por mim a pensar que, na origem deste basqueiro, está uma ideia de educação que gostaria de chamar “safa-te!”.

No último século, uma certa educação aposta tudo para que a criança se torne numa pessoa adulta autónoma e independente, ou seja, que não tenha vínculos que a determinem nem a constrinjam. A antiga ideia da sociedade que corrompe o homem singrou e teve como consequência a educação de gerações na consciência da máxima “safa-te”. E, para se safar, uma pessoa tem de ser capaz de fazer tudo sozinha, sem depender de ninguém; quanto mais sozinho, mais valor tem!

Só que a educação “safa-te!” não previu os resultados deste individualismo e destas autodeterminações… As tais pessoas independentes e autónomas, os ingleses, os catalães, I mean… nós! Nós estamos profundamente infelizes, a ver que, uma vez quebrados todos os vínculos, relativizadas todas as relações vitais, depois de “fazer tudo”, “conseguir tudo”, o coração ainda fica insatisfeito.

Fomos educados assim e estamos a educar pequenos independentistas, na ilusão de que seremos felizes quando quebrarmos todas as dependências, quando não precisarmos de nada nem de ninguém. Esquecemo-nos que precisamos uns dos outros, precisamos dos vínculos, das relações, até dos constrangimentos que os outros nos causam porque é exactamente aí que nos descobrimos realmente porque embatemos nos outros, diferentes de nós, e damos por nós mais felizes, a acolher e a ser acolhidos, a dialogar, a construir… Enfim, mais felizes!

As consequências pedagógicas de precisarmos uns dos outros dão pano para mangas e vamos dedicar-lhes algum tempo nas próximas semanas. Mas entretanto… será que o que queremos mesmo é que as crianças sejam independentes e autónomas…?

Catarina Almeida

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