Notícia de abertura infeliz!

Correio dos Açores,  04-12-2013
Escrito por Monsenhor Weber Raposo

A RTP escolheu para notícia de abertura do jornal nacional das 19 horas locais, do dia 2 de dezembro, a condenação do ex-vice reitor do seminário do Fundão por diversos crimes de pedofilia.
 O ar triunfal com que José Rodrigues dos Santos apresentou esta notícia foi deveras impressionante. Parecia que estava a exibir um grande troféu.
Muitas centenas de crimes de pedofilia têm ocorrido no nosso país e todos eles devem ser objecto de um tratamento judicial de acordo com a sua gravidade. A divulgação de alguns deles tem sido feita, na maior parte dos casos, ocultando a identidade do presumível prevaricador.
No caso em apreço, desde que começaram os primeiros rumores de eventuais crimes, o ex-vice reitor teve logo direito a grandes noticiários, de um modo especial nos canais televisivos, com total identificação da sua pessoa.
No último domingo a SIC apresentou o caso de um pai pedófilo que abusou sexualmente de duas filhas menores, uma delas de dez anos, ocultando quaisquer referências que o pudessem identificar.
Relativamente ao caso do ex-vice reitor tudo é diferente.
Ele tem sido objecto de uma cobertura televisiva, neste tipo de crimes, sem paralelo. O facto de ser notícia de abertura em tempo nobre da RTP é muito sintomático.
A leitura que faço deste facto é que se trata de um anticlerismo primário que numa sociedade evoluída já estava enterrado e que, por isso mesmo, não faz sentido que a dita nossa televisão, que estatutariamente justifica a sua existência e os milhões que saem dos bolsos dos portugueses para a suportar, por prestar um serviço público, utilize demasiado tempo de antena  para esta e outras situações semelhantes.
Num dia em que foram dadas tantas notícias com verdadeiro interesse, é lamentável que tenha sido a do padre pedófilo a escolhida para a abertura daquele telejornal e da forma como foi feito.
Não estou de modo algum a desculpar aquele infeliz padre pelos actos criminosos que cometeu. Pede-se tão somente que deva ser tratado como qualquer outro cidadão nas mesmas circunstâncias.
Infelizmente, não é a primeira vez que as televisões abusam do seu forte poder de comunicação para tentar fazer julgamentos públicos. Era tempo destes meios terem mais respeito pelos cidadãos, atingindo assim um grau de maior maturidade.
Já agora aproveito a oportunidade para opinar sobre a maneira como foi dada a notícia da recolha de diversos bens pelo Banco Alimentar. Depois de informar que tinham sido entregues mais de duas mil toneladas, o pivot – José Rodrigues dos Santos - quis vincar, com tom de voz muito persuasivo, que foram menos 6% (seis por cento) do que o ano passado, como se de uma maldade do povo português se tratasse, contra uma instituição que muito tem ajudado os mais carenciados a passarem menos fome. Não teria sido bem melhor acentuar a generosidade de tantos portugueses que, apesar da crise, mais uma vez responderam à chamada?
Estes apoios do Banco Alimentar, que os críticos do costume chamam de caridadezinha, bem os podem dispensar porque têm a manjedoura cheia. Só tendo os olhos vendados ou estando de má-fé é que não são capazes de descobrir quanta miséria, infelizmente, anda por aí e que necessita das sopas dos pobres e de outras ajudas que muitos voluntários generosamente proporcionam para que possa ser menos severa, voluntários estes que deveriam merecer toda a nossa consideração e estímulo.
Os pobres têm direito a muito mais. Mas, enquanto esse muito mais não lhes for concedido, todos temos o dever de os ajudar a ter uma vida menos sofrida.

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