A globalização e a pobreza, Miguel Monjardino, Expresso, 080412

A globalização e a pobreza

Miguel Monjardino

A diminuição da pobreza é a grande história política das últimas décadas. O Brasil é um exemplo

Há 15 dias a revista ‘Veja’ publicou uma reportagem sobre o crescimento da classe média no Brasil. Os números da revista brasileira parecem mostrar que o nível de vida da maioria dos brasileiros melhorou nos últimos anos. Segundo a ‘Veja’, nos últimos dois anos cerca de 20 milhões de pessoas deixaram de ser pobres e passaram a fazer parte da classe C, uma classe social que tem agora quase 90 milhões de pessoas. Cento e quinze milhões de pessoas pertencem agora às classes alta e média. Setenta e três milhões de pessoas estão na zona da pobreza.

O Brasil já viveu muitas alvoradas económicas. Praticamente todas elas acabaram em tempestades políticas e no empobrecimento generalizado da sua população. O resultado é um país com enorme potencial interno e externo mas também com uma enorme incapacidade para tirar partido dos seus trunfos. A reportagem da ‘Veja’ sugere que algo de importante se está a passar na sociedade brasileira. O aumento da classe média mostra que a estabilidade económica, as reformas e uma maior abertura ao mundo começaram a dar os primeiros resultados.

O Brasil, riquíssimo em recursos naturais, está numa excelente posição para satisfazer as enormes necessidades de países como a China e a Índia. Além disso, o tamanho do país e o facto de a sua população ser bastante jovem, tornam-no num mercado extremamente apetecível em termos empresariais. O aumento da classe média brasileira não deixará de ter consequências políticas. Ao contrário do que aconteceu no passado, a actual classe média brasileira deve a sua prosperidade ao mercado e não ao Estado. Esta nova classe média está interessada em criar riqueza, algo que exige coisas como estabilidade política, uma forte dieta orçamental para a enorme burocracia pública e mais reformas políticas e económicas. Nada disto é fácil, é verdade. Sem isto, todavia, o país terá grande dificuldade em continuar a subir na escada social e económica.

O Brasil é um exemplo de um fenómeno muito mais vasto a nível mundial - a diminuição da pobreza e o crescimento das classes médias. A diminuição da pobreza é a grande história política das últimas décadas. Infelizmente, é também a mais ignorada. Políticos, instituições internacionais na área do desenvolvimento e celebridades interessadas no desenvolvimento enquanto espectáculo continuam a falar e a agir como se a pobreza tivesse aumentado recentemente. O problema é que os números mostram o oposto. É verdade que, em continentes ou regiões como África e a Ásia Central, a pobreza extrema continua a ser um enorme problema. Mas, também é verdade que no resto do mundo o número de pessoas a viver nesta situação diminuiu imenso nos últimos 50 anos. Se recuarmos um pouco mais, ficamos com uma ideia bem mais precisa da importância daquilo que está a acontecer hoje em dia.

Como Gregory Clark mostra no seu livro ‘A Farewell to Alms’ (Princeton: Princeton University Press, 2007), em 1800 praticamente toda a gente no mundo era pobre ou muito pobre. O número de pessoas ricas ou com boas hipóteses de enriquecer era ridiculamente baixo. No início do século XIX, a esperança de vida de um homem ou de uma mulher era a mesma de uma pessoa na Idade da Pedra - entre 30 a 35 anos. No que toca à estatura, um bom indicador da qualidade da alimentação e da saúde pública, os homens e as mulheres de 1800 eram mais baixos do que os que viveram na Idade da Pedra. A Revolução Industrial começou a mudar esta deprimente situação na Inglaterra. De então para cá, o número de pessoas ricas ou a viver razoavelmente tem vindo a aumentar regularmente na área euro-atlântica. A abertura política e económica da maior parte da América Latina e da Ásia faz parte deste vasto e longo processo de generalizado enriquecimento a nível mundial.

A globalização é responsável pela actual prosperidade internacional. Se olharmos para trás, vemos que nunca tantos viveram tão bem como agora. A expansão da economia mundial tornou-se quase natural para muita gente. O problema é que nada nos garante que a globalização vai continuar. A história está cheia de momentos em que a globalização parou ou descarrilou. O resultado foram coisas como guerras, o proteccionismo, os neo-socialismos e o empobrecimento generalizado. Nada disto é impossível hoje em dia. A sobrevivência da globalização e a diminuição da pobreza dependem de duas coisas. A primeira tem a ver com a existência de um consenso político interno em relação às virtudes dos mercados e à aposta na abertura ao exterior. A segunda está relacionada com o contexto geopolítico e o papel das principais potências internacionais. O problema é que à volta destes dois assuntos está agora uma floresta de pontos de interrogação.

O Iraque cinco anos depois

Cinco anos depois da queda do regime de Saddam Hussein, o debate norte-americano sobre o que fazer no Iraque continua extremamente intenso. Parte desta intensidade está relacionada com o facto de 2008 ser ano de eleições para a Casa Branca e Congresso. O debate americano também está a ser extremamente intenso por causa das opções iraquianas da Casa Branca. O problema para os EUA é que estas opções iraquianas da Casa Branca exigem paciência, tempo, vidas, sacrifício e muito dinheiro. O embaixador Ryan Crocker e o general David Petraeus foram esta semana ao Congresso testemunhar sobre o Iraque. O teatro político que se seguiu escondeu o mais importante: ao ficar no Iraque até Janeiro de 2009 com um número bastante elevado de militares, George W. Bush garante ao seu sucessor mais capacidade de manobra ao nível político.

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