Graça e predestinação

MARIA JOSÉ NOGUEIRA PINTO
DN 2011-05-05
Recordo o sentimento de confusão que causou a morte de João Paulo I, Albino Luciani, patriarca de Veneza, mais bem desconhecido e que poucos vaticinavam poder vir a substituir Paulo VI. Depois de um Sínodo, da expectativa, do fumo branco, este papa com ar de boa pessoa, um mês depois, morre tão discreta como serenamente. A cadeira de São Pedro fica vaga novamente e é preciso escolher um novo papa. O fumo branco vai agora para um cardeal polaco, Karol Wojtyla, um homem de belas feições e figura atlética, contrariando a tendência secularmente dominante de papas italianos. A curiosidade foi enorme e sentiu-se em tudo uma espécie de predestinação, como se Deus se tivesse distraído por uma fracção de segundo e logo emendado a mão para pôr no Vaticano o homem certo para o tempo certo. Um homem do Leste, forjado na Igreja do silêncio, num tempo em que proclamar a fé, celebrar, manter as igrejas abertas, tudo era um risco. Ele próprio, já cardeal, foi muitas vezes substituir os párocos que iam sendo presos para que o culto nunca se interrompesse. Foi operário, actor, resistente. Passara dificuldades de toda a ordem, conhecia o sofrimento e era, dizia-se, profundamente mariano. Quando chegou à Praça de São Pedro, lançou um repto que marcou o futuro de todo o seu pontificado: "Não tenhais medo!"
Aparentemente insólito, nenhum outro podia ser mais oportuno, vivíamos num mundo com medo, vivíamos com medo, e só com João Paulo II foi possível perceber qual era, e como, o reverso desse sentimento traduzido numa total abertura à esperança e numa afirmação alegre e vital da fé. Vimo-lo durante 37 anos passar de uma inesgotável energia urbi et orbi para, numa longa fase final, um estado insustentável de degradação física, até à sua morte, que o mundo acompanhou em directo, cujo sofrimento ele suportou absolutamente, num alfa e ómega da existência humana que, deste modo, dignificou até ao fim. "Santo súbito" foi a resposta do mundo que viu nele essa santidade, nas coisas do quotidiano e nas mais transcendentes, em todo esse fresco surpreendente e riquíssimo que fora a sua vida, transformando-o num amigo dilecto da Humanidade, numa luz e num consolo para muitos milhões de seres humanos, independentemente de serem ou não católicos.
Por tudo isto interessa pouco se o processo foi excessivamente rápido ou menos "regulamen- tar", pois na realidade, como disse Soljenitsyne, "este Papa é um dom de Deus", e foi este dom que subiu, sábado, aos altares. Artífice da paz, enfrentou com desassombro os poderes deste mundo, censurou o materialismo ideológico e o materialismo prático, a tirania das ditaduras e a tirania do dinheiro, beijou o solo de todas as nações, denunciou prepotências e lutou pela liberdade e a dignidade do ser humano. Mas o seu brilho intelectual foi enorme e fecunda a sua obra tal como a sua mundivisão, qualidades políticas e talento diplomático que o levou a transformar a Ostopolotik em acção apostólica e ecuménica. Tudo dentro de uma coerência evangélica levada ao limite das suas forças, essa "coerência interior nuclear", essencial, vital, permanente.
Bem sabia Wojtyla como o seu rebanho andava confuso e perturbado, num mundo cujas formidáveis mudanças se prenunciavam. Quis dizer-nos que não estaríamos sós nos grandes combates, que ele estaria, connosco, planetário, dando, com palavras e actos, testemunho contundente sobre tudo o que nos afligia e desconcertava. Que lançaria a luz.
João Paulo II lembrou-nos constantemente que a santidade é um convite que Deus dirige a todos, renovado diariamente, mesmo quando não temos coragem para o aceitar.
Ele, aceitou-o.

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